1 de dez de 2012

Perfis de Mulher: Mabel Normand


Se fosse necessário apontar uma pioneira na área da comédia, esta com certeza seria a atriz de cinema mudo Mabel Normand. Um dos mais importantes ícones de seu estúdio e de sua era, ela não apenas fez multidões rirem, mas também criou diversas situações cômicas ao escrever e dirigir alguns filmes. Sem ela, também, provavelmente Chaplin não teria chance no cinema e alguns dos momentos mais preciosos da sétima arte nunca teriam sido criados. Em paralelo às comédias que interpretava nas telas, Mabel enfrentava dramas em sua vida pessoal.
Nascida Amabel Ethelreid Normand em Staten Island, perto de Nova York, sua data de nascimento é controversa: parentes dizem ser 1892, enquanto as publicações de quando ela estava no auge diziam 1894 ou 1895. Era a filha mais nova de várias gestações malfadadas. Quatro filhos sobreviveram ao parto e apenas três chegaram à idade adulta. Aos 14 anos Mabel deixou o colégio interno, longe de casa, para trabalhar como modelo e ajudar financeiramente a família, tendo tempo apenas para estudar desenho e música à noite. Seu pai era carpinteiro e músico itinerante e Mabel queria ser uma grande musicista.
Em 1910 ela conseguiu alguns trabalhos como extra em estúdios de cinema e logo evoluiu para papéis maiores. Seus primeiros empregadores e colegas de cena ensinaram-lhe muito, embora ela já tivesse aprendido várias expressões faciais, tão essenciais no cinema mudo, durante sua experiência como modelo. Nesse tempo ela atuou com igual sucesso em dramas e comédias, tornando-se logo ídolo das plateias.
Sua predisposição para a comédia falou mais forte e, quando foi para a Califórnia, logo se juntou ao recém-fundado estúdio Keystone. Seus trabalhos lá eram basicamente filmes curtos e que causavam riso fácil. Sua persona cinematográfica se consolidou nesta época: Mabel, a personagem, era uma moça espoleta que vivia as mais loucas situações, que exigiam que Mabel, a atriz, fizesse cenas arriscadas sem dublê.   
No final de 1913, Mabel era a mais importante estrela feminina do estúdio, mas seu chefe, Mack Sennett, sofria com a perda de dois atores que foram tentar carreira solo. Para substitui-los, ele foi até a Inglaterra e contratou um comediante do teatro, chamado Charles Chaplin. Reza a lenda que Sennett detestou os primeiros trabalhos de Chaplin para o estúdio e queria demiti-lo, mas Mabel insistiu para que Charlie ficasse. Esta passagem é retratada no filme “Chaplin” (1992), em que Mabel foi interpretada por Marisa Tomei. O ator permaneceu no estúdio, Mabel tornou-se sua melhor amiga e ele foi ganhando prestígio e o melhor, liberdade criativa.
Em meio a alguns de seus maiores sucessos, como “Mickey” (1918), feito em sua própria produtora, Mabel viu-se no meio dos maiores escândalos de sua época. Em 1921, seu antigo colega de trabalho Roscoe “Fatty” Arbuckle foi acusado de estupro e assassinato de uma jovem atriz em uma festa, gerando um debate inédito sobre a moral nos filmes e a conduta dos atores. No ano seguinte, o diretor William DesmondTaylor, que estava lhe ensinando muito sobre artes, foi assassinado e Mabel foi a última amiga a vê-lo com vida. Muitos questionaram o envolvimento dela com o diretor e levantaram a hipótese de o culpado ter cometido o crime por ciúmes de Mabel. Logo no início de 1924 seu motorista atirou em um magnata que havia feito um comentário maldoso sobre ela. E, no mesmo ano, ela foi apontada como pivô de uma separação, o que mais tarde foi comprovado ser uma acusação falsa.
Todos esses problemas geraram consequências para Mabel, embora seu envolvimento fosse mínimo. O destaque dado a ela pela imprensa acabou ajudando a divulgar alguns de seus filmes que viraram sucesso de bilheteria, mas a cada nova confusão ela se tornava mais triste e sua atuação tinha mais traços de sofrimento. O fracasso de sua única peça, feita em 1925, também não ajudou.
Sua saúde começou a declinar já em 1915, quando ela sofreu uma concussão mal explicada na cabeça. Há quem diga que foi a amante de Mack Sennett, então noivo de Mabel, que tenha atirado um objeto na cabeça da atriz. Depois de um tempo no hospital, ela começou a tomar remédio para aliviar a dor, viciando-se no medicamento. Algumas fontes citam que ela também seria viciada em cocaína e foi o desejo de livrar-se do vício, e não o interesse por livros, que a fez se aproximar de William Desmond Taylor. Assim como muitas estrelas da época, ela também não levava uma vida regrada, alimentando-se de forma errada e participando de festas selvagens que duravam a noite toda. Todos esses fatores, aliados a fraturas ocorridas em suas cenas sem dublê, levaram-na a contrair pneumonia em 1923, tendo uma recaída quatro anos depois. A pneumonia evoluiu para uma tubercolose que acabou por matá-la em 1930.
Mabel e Lew Cody
Novamente há muitos boatos sobre a vida amorosa de Mabel. Sua relação com Chaplin e o magnata Samuel Goldwyn ainda é motivo de controvérsia. Sennett, seu ex-noivo, jamais se casou. Estando em Paris em 1922, ela foi pedida em casamento por um príncipe egípcio, mas recusou. Em 1926, casou-se com Lew Cody, com quem já havia contracenado. Os dois tinham grandes diferenças e viviam separados, mas Cody, assim como seus muitos amigos de Hollywood, foi de total importância para Mabel em seus tempos difíceis. Cody faleceu em 1934, vítima de problemas cardíacos. Sem viver para enfrentar as mudanças causadas pela chegada do som ao cinema, Mabel Normand deixou um legado de comédias que ainda divertem e uma história de vida que ainda emociona.   

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