Mostrando postagens com marcador Letícia Magalhães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Letícia Magalhães. Mostrar todas as postagens

11 de ago. de 2013

Feliz Dia dos Pais, mamãe!

Ano passado, em uma data que há muito passa despercebida para mim, tive uma agradável surpresa na linha do tempo do meu Facebook. Várias pessoas, em especial as mais jovens, estavam desejando feliz Dia dos Pais... para suas mães. Durante todo o dia amontoaram-se fotos, homenagens e mensagens para as mães batalhadoras que precisam desempenhar um papel duplo na criação de seus filhos. E até há pouco tempo essas mulheres admiráveis eram vistas com maus olhos.
Uma das boas consequências da Primeira Guerra Mundial (e, acredite se quiser, guerras têm boas consequências, como o avanço tecnológico) foi a inserção mais rápida da mulher no mercado de trabalho, que seria inevitável, mas talvez demorasse mais em tempos de paz. Milhões de mulheres foram trabalhar nas fábricas e passaram a sustentar a casa na ausência dos maridos, sendo que muitos deles não voltaram dos campos de batalha.

A partir da década de 1960, com conquistas sobre seu próprio corpo, como o direito de decidir quando e mesmo se querem ter filhos, as mulheres avançaram ainda mais. Entretanto, em especial em cidades pequenas, a mulher divorciada era vista com muito preconceito, a começar pela Igreja.    

Segundo o Censo de 2010, mais de 37% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres. Em 12,2% dos lares, moravam a mulher e seus filhos, sem um cônjuge do sexo masculino. Infelizmente, das famílias chefiadas por mulheres, 53% se encontram abaixo da linha da pobreza, isso devido à velha condição da disparidade de salários entre os sexos, além do fato de que muitas meninas pobres engravidam e seus companheiros não assumem a responsabilidade. 
Muitas vezes essa “família disfuncional” é apontada como causa primeira de traumas e problemas diversos para os filhos. A falta de uma figura paterna às vezes é apontada como causa de criminalidade, uma vez que alguns adolescentes não se acostumaram a receber ordens de adultos do sexo masculino. Sim, as mães solteiras ou divorciadas devem ter o máximo de cuidado com seus filhos, da mesma maneira que as casadas. Indo para o lado pessoal, fui criada por minha mãe e por meus avós, e não me transformei em delinquente. Sim, tenho problemas, mas estes todos nós enfrentamos. Entretanto, não consigo imaginar a palavra “pai” saindo de minha boca, seja falando sobre meu próprio pai ou, num futuro que nem sei se ou como vai acontecer, falando de um companheiro para um filho.  

As mulheres sempre sofrem pressão para terem filhos. Se os têm e se separam, a criança ou adolescente acaba virando um repelente para outros relacionamentos e motivo constante de preocupação e, às vezes, de batalhas judiciais. As mulheres que são pai e mãe merecem todo nosso respeito não só em datas comemorativas, mas em todos os 365 dias do ano.

9 de jun. de 2013

Estatuto do nascituro, a questão do estupro e a pré-história dos direitos das mulheres

Atenção: Esse artigo reflete a opinião de apenas uma das colunistas do Antes que Ordinárias, Letícia Magalhães, e não necessariamente de todas as colaboradoras.

As leis brasileiras são algumas das mais complicadas e rebuscadas do mundo. A recente aprovação do Estatuto do Nascituro, além de causar muita polêmica, em especial na Internet, reflete essa complicação. Seu texto breve, que pode ser encontrado na íntegra AQUI, embora não revogue algumas medidas legais sobre o aborto, em muito as atrapalha ao estabelecer uma série de direitos ao embrião / feto.
No Brasil é permitido o aborto no caso de risco de vida para a mãe, gravidez resultante de estupro e fetos anencéfalos. Como o estatuto prevê que os direitos do embrião / feto devem ser garantidos mesmo em caso de deficiência física ou mental, a interrupção da gravidez no caso de anencefalia, aprovada em nosso país há pouco mais de um ano e bastante discutida, fica em aberto. Some à discussão o caso de uma moça de El Salvador, país que não permite o aborto, que descobriu que a gravidez de seu feto anencéfalo podia matá-la, considerando seu histórico de lúpus e problemas renais. Depois de debates e abaixo-assinados, foi realizada uma cesariana na moça.

O ponto mais polêmico, obviamente, é a garantia da continuidade de uma gravidez causada por estupro e, no caso de a mãe passar por dificuldades financeiras, receber ajuda governamental, medida que foi apelidada de Bolsa Estupro (e, conhecendo o “jeitinho brasileiro”, nem me espantaria ao ver alguém inventando um estupro para receber o benefício). Em tal caso a falta de dinheiro é o menor dos problemas: a tortura psicológica não está presente apenas em criar o filho de um estuprador (um ponto é que a criança pode ser dada para adoção se a mãe quiser), mas sim ter de gerá-lo, carregá-lo e pari-lo. Está prevista ajuda psicológica a estas gestantes, mas, como boa parte das promessas na área de saúde no Brasil, é muito provável que isto também não seja cumprido. O mais absurdo é a ideia de localizar o estuprador e obrigá-lo a pagar uma pensão, o que seria, além de uma humilhação incomensurável, a comuta da prisão por uma fiança.

Os debates sobre aborto são muito acalorados e os argumentos, os mais diversos possíveis, dos bem fundamentados até os esdrúxulos. Há quem diga que a legalização do aborto, assim como uma hipotética descriminalização da maconha, deixaria as mulheres menos conscientes, em especial as adolescentes, que transariam como se não houvesse amanhã, sabendo que poderiam interromper a gravidez. Porém, da mesma forma que acontece com quem realmente quer usar drogas, a mulher que de fato deseja um aborto vai procurar todos os meios de fazê-lo. Milhões de abortos são feitos clandestinamente todos os anos, tornando o assunto uma questão de saúde pública, de controle de danos.
De fato, muitas mulheres que optam pelo aborto não se protegeram na relação sexual. Mesmo assim, elas não deveriam ser obrigadas a levar a gestação adiante. Se elas querem abortar, provavelmente não quererão cuidar da criança após o nascimento e até ela ser independente. Boas pessoas podem nascer de gestações indesejadas, mas grandes bandidos, estupradores e males em geral para a sociedade também.

Outras tantas mulheres, meninas e adolescentes, por total impossibilidade de começarem a vida sexual, não usam contraceptivos. Se uma delas for estuprada, pode vir a engravidar. No caso de meninas muito jovens, o caso pode chegar ao absurdo, como um que ocorreu alguns anos atrás e cujos detalhes mais ínfimos não lembro. Era uma menina de nove anos que foi estuprada e engravidou de gêmeos. Uma quantidade vergonhosa de manifestantes se opôs à interrupção de uma gravidez provavelmente fatal. Muitos deles, como os religiosos, acreditam que um embrião que é apenas uma promessa de vida vale mais que a vida concreta de uma pessoa que já nasceu e pecou. Digo promessa de vida baseando-me em um documentário que vi nos idos de 2006 e que me causou profunda impressão. Nele, há um close no rosto de um embrião em um poderoso ultrassom 3D, e a fala: “não é garantido que isso vá se transformar em um olho. Aliás, é muito provável que isso nunca venha a ser um olho”. Que o digam as várias mulheres que sofreram um ou mais abortos espontâneos, a forma de a natureza dizer que algo não estava se desenvolvendo bem.
Voltando ao Estatuto, seu maior retrocesso está nas entrelinhas: a pesquisa com células-tronco seria proibida se o texto for interpretado ao pé da letra. Garantindo direitos até ao embrião fecundado in vitro, o Estatuto dá sua própria definição de quando a vida começa: na fecundação. Definição esta que, vale ressaltar, não se chegou a um acordo desde que os debates começaram, com os pais da filosofia na Grécia antiga. Assim, todas as pesquisas responsáveis por desenvolverem vacinas e darem esperança de cura e reabilitação para pessoas vivas seriam jogadas fora.
Nossos congressistas deveriam nos representar, mas a maioria tanto do Congresso quanto da Câmara é formada por homens maiores de quarenta anos, ou seja, com visões que tendem a ser mais conservadoras. Em geral, o aborto foi discutido e legalizado em países desenvolvidos recentemente. Em pesquisa para meu novo livro, já concluído mas ainda não publicado, descobri que até a década de 1970 o estupro era culpa da mulher, só deixando de lhe cair esta culpa se ela provasse que tentou seriamente se defender. Outro fenômeno recente são os abaixo-assinados na Internet e, obviamente, existe também um contra o Estatuto do Nascituro. Lembrando que a petição para o Impeachment de Renan Calheiros teve mais de um milhão de assinaturas e a para a saída de Feliciano da Comissão de Direitos Humanos contou outras tantas centenas de milhares, mas nenhuma das duas surtiu efeito, é provável que o fim do Estatuto também não seja alcançado. Mas que ele seja cumprido, essa já é outra história.

10 de abr. de 2013

Perfis de Mulher: Margaret Thatcher

Reverenciada como uma das mulheres mais poderosas do século XX e uma das melhores chefes de Estado que a Inglaterra já teve, Margaret Thatcher deixou o mundo dividindo opiniões. Todos esses elogios não encobrem o descontentamento popular durante todo seu governo, nem as heranças questionáveis que ela deixou não apenas para seu país, mas para o mundo todo. Seria a Dama de Ferro uma governante de coração de pedra?
Margaret Hilda Roberts nasceu em 1925,filha mais nova de um homem politizado e religioso, que criou as duas meninas na igreja Metodista. Apesar de ter um bom desempenho escolar, Margaret só conseguiu uma bolsa no curso de Química em Oxford após a desistência de um aluno mais bem classificado (anos depois, o conselho estudantil vetaria a ideia de dar à então primeira-ministra um doutorado honorário). Ela formou-se com honras e se especializou em raios-X. Na faculdade tomou contato com as primeiras ideias políticas que serviriam de base para todo seu pensamento e ação quando no poder.
Um turbilhão de mudanças veio enquanto ela desenvolvia emulsificantes para sorvete em uma fábrica: além de conhecer seu futuro marido, Denis Thatcher, ela se envolveu e fato com política, atraindo a atenção em sua primeira eleição por ser a candidata mais jovem e a única mulher, isso em 1951. Embora tenha perdido, ela seguiu no meio e se elegeu para o Parlamento e depois foi nomeada secretária da educação, colecionando suas primeiras críticas e polêmicas.
O maior motivo de espanto foi a derrota de Edward Heath, mentor de Margaret, nas eleições para líder da oposição em 1975. A vitória da já então Dama de Ferro (apelido dado por um jornal soviético, e que ela adorou) foi vista como uma traição, mas seu destino já estava traçada: em 1979 se tornou a primeira e ate hoje única mulher a ser primeira-ministra da Inglaterra.
Ela ficou no cargo 11 anos, um período nada fácil. Margaret teve de lidar com o acirramento de questões raciais, altos índices de inflação e desemprego, greves e embates na Irlanda do Norte e pequena aprovação popular. Bastante liberalista, ela diminuiu o poder dos sindicatos e promoveu a privatização de indústrias, gerando uma tendência econômica que iria chegar no Brasil em meados dos naos 1990. Só foi reeleita em 1982 após o sucesso na Guerra das Malvinas, iniciada quando a Argentina invadiu as ilhas Malvinas, ou Falklands, que ficam próximas a seu litoral mas estão sob o poder da Inglaterra.
Outros fatores serviram para torná-la digna de admiração, como não ter se abalado após ter sofrido um atentado em 1984, e as relações mais abertas com líderes comunistas na década de 1980, embora ela própria, como seu aliado na política externa, Ronald Reagan, combatesse ferozmente o comunismo. Em 1990, o feitiço virou contra o feiticeiro e sua renúncia teve também sabor de traição, após ver-se sem apoio e ser desafiada na liderança da oposição.   
Tema de muitas músicas de protesto, charges e imitações durante seu governo, Thatcher ganhou uma cinebiografia em 2011, “A Dama de Ferro”, com Meryl Streep, em uma caracterização perfeita, no papel principal. O filme causou polêmica ao mostrar a ex-política sofrendo de demência, em especial acreditando que seu marido, morto em 2003, ainda vivia. Anos antes da filmagem, sua filha (ela teve um casal de gêmeos) confirmou a saúde frágil da mãe, que não aparecia em público já há alguns anos.
Suas medidas no governo foram as mais diversas possíveis: por um lado se posicionou a favor da descriminalização da homossexualidade masculina (você não leu errado) e do aborto, mas por outro quis manter leis rígidas em casos de divórcio e sempre foi contra a entrada da Inglaterra na União Europeia e ao julgamento do ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Não é possível dizer se Margaret estava certa ou errada em suas decisões, apenas admirar essa mulher que, além de abrir um caminho importante para as mulheres na política, sempre agiu conforme suas próprias ideias.


"O que é sucesso? Eu penso que é uma mistura de ter prazer pelo que você faz, saber que isso não é o suficiente, que você precisa trabalhar duro e um certo senso de propósito"

Margaret Thatcher (1925-2013)

27 de mar. de 2013

Perfis de Mulher: Edith Piaf

Muitas estrelas da música tiveram vidas trágicas, sobretudo no século XX. Com a mais conhecida cantora francesa não foi diferente: Edith Piaf enfrentou grandes dificuldades durante toda a vida e tanta intensidade a fez sucumbir aos 47 anos.
Edith Giovanna Gassion nasceu em dezembro de 1915, filha de um acrobata e uma cantora. Era descendente de italianos e marroquinos, e recebeu o nome Edith em homenagem a uma enfermeira inglesa executada durante a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Abandonada muito cedo, morou com as duas avós, incluindo a paterna, que era dona de um bordel, enquanto o pai lutava na guerra. Aos sete anos, foi acometida por uma cegueira misteriosa, que alvoroçou as prostitutas do bordel de sua avó, fazendo-as juntar dinheiro para uma peregrinação em favor de Edith, que se mostrou bem-sucedida. O que a menina tinha, na verdade, era ceratite, uma inflamação na córnea.
No início da adolescência, juntou-se ao pai acrobata e aos 14 anos cantou pela primeira vez em frente ao público. Já longe do pai, tornou-se cantora de rua, como a mãe, e aos 17 anos teve sua única filha, Marcelle, com um moço que fazia entregas. Marcelle morreria aos dois anos de idade, vítima de meningite. No mês seguinte a essa tragédia, a vida de Edith mudou, ao conhecer Louis Lepleé, dono de uma boate. Ele a treinou, ajudou-a a ter confiança para subir no palco e a aconselhou a apresentar-se sempre com roupas pretas, mais tarde sua marca. E foi também Louis que lhe deu o apelido La môme piaf, o pequeno pardal, em alusão a seu nervosismo e baixa estatura.
O sucesso foi imediato e Piaf se tornou amiga de vários artistas e compositores franceses. O assassinato de Louis, em 1936, veio lhe tirar o sossego, uma vez que sua carreira que começava já se via ameaçada por um escândalo. Felizmente foi comprovado que Piaf não tinha nada a ver com o crime, e hoje se acredita que Lepleé foi morto devido a um envolvimento com a máfia. Ela prosseguiu cantando, ajudada por outros mentores, como a compositora Marguerite Monnot, que escreveu muitas músicas baseadas na vida de Edith nas ruas.
Piaf também exercitou seu lado boa samaritana e ajudou a revelar grandes nomes da música francesa, dando-lhes um lugar em seu show quando eles ainda estavam no começo da carreira. Fazem parte desse grupo Charles Aznavour e Yves Montand. Foi com Azanavour que ela sofreu um sério acidente automobilístico, quebrando um braço e duas costelas, e a partir daí precisando constantemente de morfina. 
O nome do pai de sua filha não ficou para a posteridade, mas o dos amores de Piaf, sim. O maior deles, Marcel Cerdan, um boxeador, morreu em um acidente de avião, deixando a cantora devastada e fazendo com que o relacionamento virasse manchete em jornais do mundo todo. Piaf casou-se duas vezes: a primeira em 1952 com o cantor francês Jacques Pills e a segunda em 1962 com o cabeleireiro transformado em cantor Théo Sarapo, de origem grega. Sua vida pessoal não foi atribulada apenas por seus amores. Durante a Segunda Guerra Mundial, Piaf cantava para as tropas nazistas que ocuparam a França, e foi muito criticada por esse ato. Hoje sabemos que Piaf ajudou várias pessoas a fugir dos alemães, e inclusive aceitava tirar fotos com prisioneiros para que, da cópia da foto, eles fizessem um passaporte para escapar.
Piaf faleceu em 1963, vítima de câncer de pulmão. Por sua vida pouco regrada, o arcebispo da Igreja Católica não permitiu um funeral aberto para ela, mas cerca de 100 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre. Passados quase cinquenta anos de sua morte, Edith Piaf permanece um ícone da música mundial, pois ganhou fama internacional durante as décadas de 1940 e 1950. Biografias foram escritas sobre sua trajetória complicada. Claro que uma vida tão incrível atraiu a atenção da indústria do cinema, e em 2007 estreou “Piaf, um hino ao amor”, cinebiografia que reconta com perfeição a vida e os amores desse ícone.

“Tudo o que eu fiz na minha vida foi desobedecer”
Edith Piaf (1915 – 1963) 

11 de fev. de 2013

Perfis de Mulher: Carmen Miranda


Em época de carnaval, nos lembramos de grandes nomes do samba. Quem quer dar um toque mais vintage à folia com certeza dança ao som de Carmen Miranda, portuguesa de coração e alma brasileiros, que levou a música e os estereótipos do nosso país para o mundo e, apesar da vida curta, permanece um ícone não apenas na mente dos foliões, mas também de todos que apreciam bons filmes e boa música.
Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 1909 numa pequena vila perto do município de Marco de Canaveses, em Portugal. Apelidada de Carmen pelo pai, um amante de ópera, era a segunda de seis filhos. Quando tinha um ano de idade, veio com a mãe para o Rio de Janeiro, onde o pai já estava havia alguns meses. Aos 14 anos parou de estudar e foi trabalhar em uma boutique, a fim de ajudar a pagar o tratamento de tuberculose da irmã mais velha. Aprendeu a costurar e abriu sua própria chapelaria, onde cantava enquanto trabalhava. Esse hábito lhe trouxe a oferta de gravar um disco.
O sucesso de seu disco levou Carmen a seu feito pioneiro inicial: ela foi a primeira pessoa a ter um contrato com uma rádio no Brasil, a Mayrink Veiga do Rio de Janeiro. Suas apresentações no rádio e ao vivo faziam sucesso e, em 1939, ela foi abordada por um agente da Broadway que queria levá-la para seu show. Ela aceitou, com a condição de que seus companheiros do Bando da Lua fossem junto.
O êxito na Broadway se repetiu nos filmes. Sua primeira experiência cinematográfica foi em 1933, no documentário “A voz do carnaval”, mas foi com os musicais que ela se consolidou. Se Getúlio Vargas apoiou sua ida para os Estados Unidos, em um fato inédito, durante a Segunda Guerra Mundial o presidente Roosevelt resolveu usá-la como parte da “política da boa vizinhança”, que consistia em manobras culturais para aproximar os EUA dos países latino-americanos. A ideia funcionou, e os filmes de Carmen fizeram imenso sucesso.
A admiração dos americanos e do povo brasileiro não era compartilhado pela elite do Brasil. Em 1940, ao fazer um evento beneficente, ela foi vaiada e criticada por levar uma imagem negativa do nosso país para o exterior. De fato, era estereotipada os filmes, tendo de falar com forte sotaque. Depois do incidente, gravou a música “Disseram que eu voltei americanizada” e ficou 14 anos sem voltar ao Brasil.
Nos EUA, continuava colhendo os frutos da popularidade: em 1941 foi a primeira e até hoje única latina a imortalizar suas mãos e pés no cimento do Grauman’s Chinese Theater. Em 1945, era a mulher mais bem paga de Hollywood. Infelizmente, este foi também seu último ano de glórias. Seus próximos filmes fracassaram, e sua imagem exótica já não mais agradava. Casou-se em 1947 com um produtor de cinema, David Albert Sebastian, e sofreu um aborto espontâneo no ano seguinte. O casamento também naufragou, embora ela não tenha tido tempo de se divorciar.
Se em uma época ela era adorada e parodiada, lançava moda e hits musicais, agora Carmen era consumida por álcool, tabaco, anfetaminas e barbitúricos. Ela só se recuperou de um colapso nervoso ao voltar para o Brasil, tendo desta vez uma recepção mais calorosa. De volta aos EUA, quis encerrar sua carreira mas, durante a gravação de um episódio do programa de TV “The Jimmy Durante Show”, ela teve um ataque cardíaco. Não se abalou e continuou seus número. Naquela noite, enquanto dormia, teve outro ataque cardíaco, este fatal. Aos 46 anos de idade, estava morta, e seu funeral no Rio de Janeiro foi acompanhado por meio milhão de pessoas.
Selo americano de 2011
Suas músicas ainda são consideradas marcas registradas do Brasil. Sua vida foi objeto de estudo, de livros e documentários. No entanto, o que mais permanece é sua imagem. No início da década de 1940, as lojas norte-americanas foram invadidas por roupas brilhantes, sapatos de plataforma, joias chamativas e chapéus de fruta. Até hoje joias em formato de frutas são confeccionadas inspiradas nela e todo carnaval podemos encontrar um folião fantasiado de Carmen.     

“Vou empregar todos os meus esforços para que a música popular do Brasil conquiste a América do Norte, o que seria um caminho para a sua consagração em todo o mundo.”

Carmen Miranda (1909 – 1955)

1 de fev. de 2013

Perfis de Mulher: Audrey Hepburn

No dia 20 de janeiro foram lembrados os vinte anos da morte da atriz Audrey Hepburn. Conhecida mundialmente como ícone fashion, ela revolucionou a relação entre cinema e moda através de sua parceria com o estilista Givenchy. Considerada uma das mais belas atrizes, mostrou-se também talentosa e versátil, além de ter um importantíssimo legado: seu trabalho junto à UNICEF.
Audrey Kathleen Ruston nasceu na Bélgica em 1929, vindo de família aristocrática por parte de mãe. Tinha dois meio-irmãos mais velhos do primeiro casamento de sua mãe. Depois que o pai saiu de casa ao ter uma traição descoberta pela esposa, Audrey, a mãe e os meninos foram para a Holanda. A Segunda Guerra estourou e trouxe dificuldades para a família. Um dos meio-irmãos foi para um campo de trabalhos forçados, Audrey e a mãe ficaram escondidas na casa de parentes. A menina sofreu de desnutrição e anemia. Transformava bulbos de tulipa em farinha para fazer bolos e pães, além de depender das escassas rações que eram dadas às populações dos locais ocupados. Especula-se que sua magreza posterior tenha tido raízes nesses tempos difíceis.
Tendo lições de balé desde os cinco anos e havendo inclusive se apresentado durante a guerra para angariar fundos para a resistência holandesa, o palco era seu caminho natural. Em Londres, tornou-se parte do coro teatral e, ao receber a notícia de que seu físico alto e má nutrição a impediriam de ser tornar primeira bailarina, resolveu virar atriz. Sua primeira aparição em um filme foi como uma aeromoça numa película educativa que prometia ensinar “holandês em sete lições”. Continuou no palco e nas telas, sendo seu primeiro papel mais importante no cinema justamente o de uma bailarina.
1954 foi o melhor ano de sua vida. Em tour com a peça “Gigi”, para a qual foi escolhida pela própria autora, Audrey chegou aos Estados Unidos em 1953 e atraiu a atenção do diretor William Wyler, que lhe deu o papel principal em “A princesa e o plebeu / Roman Holiday”. Esse filme lhe garante sucesso de crítica e também o Oscar, BAFTA (prêmio inglês) e Globo de Ouro de Melhor Atriz. Seu estilo chama a atenção das revistas e fashionistas. No mesmo ano estreia na Broadway, onde conhece seu primeiro marido, o também ator Mel Ferrer. Ganha o Tony, prêmio teatral, de Melhor Atriz, e se casa com Mel.    
Seus trabalhos no cinema são os mais variados, indo do drama “Uma cruz à beira do abismo / The nun’s story” (1959) à comédia “Charada / Charade” (1963), passando por romances como “Sabrina” (1954). No entanto, seu papel mais marcante com certeza foi Holly Golightly em “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany’s” (1960). Tanto o autor do livro, Truman Capote, quanto a própria atriz acreditavam que ela não era a melhor escolha para ser a protagonista, mas este se tornou seu mais conhecido e amado filme.
Embora haja alguma confusão sobre se há ou não parentesco entre Audrey e a também atriz americana Katharine Hepburn, para resolver a dúvida é só buscar a origem do sobrenome na vida de cada uma. Enquanto Kate foi batizada com o sobrenome, Audrey adquiriu-o do pai após este adicioná-lo ao nome, pensando ser descendente da rainha Mary da Escócia. O pai de Audrey nada tem a ver com a rainha, mas, curiosamente, Katharine é uma descendente de Mary.
Embora contribuísse para a UNICEF desde os anos 50, foi só na década de 1980 que seu esforço passou a ser em tempo integral. Realizou visitas a diversos países, uma vez que falava seis línguas, e se preocupou com as crianças carentes. Mesmo não sendo este seu objetivo, Audrey ganhou prêmios também por seu trabalho filantrópico, incluindo um prêmio humanitário no Oscar, sendo este póstumo. Também ganhou postumamente o Emmy e o Grammy, o primeiro por um documentário feito em vários países e o outro por um álbum de histórias para crianças.
Durante seu casamento com Mel, sofreu quatro abortos espontâneos. Seu filho Sean nasceu em 1960 e, oito anos depois, ela e Mel se divorciaram. Seu segundo casamento foi com o psiquiatra italiano Andrea Dotti, que conheceu em um cruzeiro pelas ilhas gregas. Com ele teve o filho Lucca, já aos 40 anos, e sofreu mais um aborto, aos 45. Sempre preocupada com os filhos, só iniciou ambos os divórcios quando sentiu que os meninos poderiam lidar com o fato de serem criados só pela mãe. Depois de se separar de Andrea, passou a viver com o ator holandês Robert Wolders e, embora não fossem casados legalmente, Audrey disse que esse foi o melhor período de sua vida. Hoje o filho Sean é o responsável pelo legado da atriz.
Audrey faleceu de câncer no apêndice. Descoberta quatro meses antes, a doença se mostrou incurável. Seu legado é imenso e, apesar de ter um estilo invejável, suas escolhas casuais demonstravam a simplicidade que sempre foi sua marca e sua melhor qualidade.

“Lembre-se de que, se você precisar de uma mão amiga, estará na ponta de seu braço. Quando você envelhecer, lembre-se de que você tem outra mão: a primeira é para ajudar você mesmo, a segunda é para ajudar os outros”.
Audrey Hepburn (1929-1993)

5 de jan. de 2013

Perfis de Mulher: Hebe Camargo

O fim do ano sempre chega com a esperança da renovação a partir de primeiro de janeiro. No entanto, há também um gosto agridoce quando nos lembramos de quem se foi no ano que terminou. Em 2012 o Brasil perdeu uma de suas maiores apresentadoras, pioneira na televisão, simpática e adorada pelo público: Hebe Camargo.
Nascida em 1929, na cidade de Taubaté, era a caçula de seis filhos e costumava acompanhar o pai, violinista e cantor, em suas apresentações. Quando ela tinha 14 anos a família mudou-se para São Paulo, pois o pai foi trabalhar na Rádio Difusora, chegando a reger a orquestra da emissora. Um ano depois, Hebe estreava como cantora na Rádio Tupi. Nos anos seguintes cantou em um quarteto familiar e também fez apresentações de sambas e boleros, cantando em boates e gravando discos.
Capa de LP

Seu envolvimento com a televisão se deu desde os primeiros instantes de vida dessa nova forma de entretenimento no Brasil. Em 1950, ela e Assis Chateaubriand foram ao porto de Santos buscar os equipamentos que chegavam para as primeiras transmissões. Hebe havia sido escalada também para cantar o Hino à Televisão na primeira transmissão, mas não foi ao evento e foi substituída pela amiga de longa data Lolita Rodrigues. Mesmo assim, ela foi pioneira nos programas femininos, apresentando “O mundo é das mulheres” em 1965 e a partir daí conferindo o tom descontraído das entrevistas, algo que se tornaria sua marca e sua maior contribuição para a televisão.
Hebe passou por diversas emissoras, onde teve programas de entrevista nos mais variados formatos. Mas com certeza sua mais lembrada casa foi o SBT, no qual ela fez mais de mil programas em quase vinte e cinco anos. Na emissora ela também foi madrinha do Teleton, programa especial dedicado à arrecadação de recursos para as crianças deficientes. Sua saída da emissora em 2010 surpreendeu o público e Hebe firmou contrato com a RedeTV!. Dias antes de a apresentadora falecer, sua volta ao SBT foi anunciada.
Hebe casou-se pela primeira vez aos 35 anos com Décio Capuano, que já namorava fazia 15 anos. Em 1965 ela teve seu único filho, Marcello, e ficou um ano sem trabalhar cuidando do menino. Conta-se que Décio era muito ciumento e não concordava com o trabalho da esposa no rádio e na televisão, motivo que a levou a se separar dele em 1971, menos de sete anos após o casamento. Dois anos depois ela casou-se com o empresário Lélio Ravagnani, com quem ficou até a morte dele, em 2000. Hebe admitiu ter feito um aborto aos 18 anos, quando engravidou e foi abandonada pelo primeiro namorado, e disse que sofreu mais dois abortos espontâneos enquanto vivia com Décio.
O câncer no peritôneo, tecido na região abdominal, foi descoberto no início de 2010. A partir daí sucederam-se séries de cirurgias e internações. Com sua morte e enterro, o país parou e São Paulo viveu 24 horas de cidade fantasma, tamanho era o carinho dos paulistanos pela apresentadora. As homenagens nas mais diversas emissoras mostraram o quanto ela foi benquista por seus colegas de profissão e respeitada pelo público, até mesmo pelos telespectadores que não eram seus fãs de carteirinha.  
Hebe virou até boneca
Sua marca registrada foi a espontaneidade, expressa nas conversas em seu famoso sofá, nos selinhos que distribuía entre os convidados, a quem tratava por “gracinha”. Sua alegria se mostrou presente nas viagens, sobre as quais fazia matérias para seu programa, com direito até a desfilar na parada da Disney. Sua fé era inabalável e seu legado continua, mesmo que inconscientemente, em todos os cantos da televisão brasileira.

“Não existe motivo nenhum para você mudar sua personalidade porque você tem uma situação melhor ou não. Eu fico com pena de quem
muda.”
Hebe Camargo (1929-2012)

22 de dez. de 2012

Perfis de Mulher: Jeanne Calment


Qual a importância de Jeanne Calment para as artes ou as ciências? A priori, nenhuma. Seu maior feito foi viver, e viver muito: Jeanne foi a pessoa mais velha do mundo. Ninguém alcançou seu recorde de incríveis 122 anos. Em mais de um século, ela presenciou as mais notáveis descobertas e mudanças. Mas qual foi seu segredo para viver tanto?  
Jeanne Louise Calment nasceu em 21 de fevereiro de 1875, na cidade de Arles, na França. A longevidade se mostrou presente entre seus familiares mais próximos, uma vez que seu pai viveu quase cem anos e o irmão, 97. No entanto, seus descendentes não tiveram a mesma sorte: a filha de Jeanne morreu aos 35, vítima de pneumonia, e o neto, criado por Jeanne, aos 36 em um acidente de carro. O marido dela, um rico comerciante, faleceu aos 73 anos, depois de comer uma sobremesa com cerejas estragadas.
Jeanne nunca foi atleta ou obcecada pela beleza e saúde. A riqueza de seu marido permitiu que ela se dedicasse a seus hobbies, como jogar tênis, nadar, andar de bicicleta e também ir à ópera. Ela andava de bicicleta mesmo com 100 anos de idade e morou sozinha até os 110. Sua dieta também não era extremamente regulada. Ao ser perguntada a que ela creditava sua vida longa, respondeu que era ao azeite de oliva que consumia nas refeições e também esfregava no corpo. Entre seus hábitos alimentares estavam tomar vinho do porto e comer um quilo de chocolate por semana.
Os casos de supercentenários, pessoas que vivem mais de 110 anos, são cada vez mais comuns, mas mesmo assim devem ser investigados. Considerando-se que muitos registros de nascimento do século XXI e início do século XX saíam com erros, uma vez que não havia máquinas que auxiliassem em sua emissão, vários casos de pessoas que se diziam as mais velhas do mundo acabaram sendo provados como falsos. Jeanne, no auge de sua fama, teve sua idade posta à prova e confirmada várias vezes, em especial por se tratar da única pessoa que passou dos 120 anos.
Apesar de ter vivido tanto e numa época tão turbulenta e cheia de mudanças, Jeanne teve um cotidiano calmo. Só ficou famosa aos 113 anos, quando equipes de repórteres foram à sua cidade devido ao centenário da visita de Van Gogh a Arles, onde ele pintou alguns famosos quadros. Jeanne foi entrevistada por tê-lo conhecido, embora dissesse que ele lhe pareceu “sujo, mal-vestido, muito feio, mal-educado e doente”. Mesmo assim, Jeanne apareceu brevemente em um filme sobre o pintor, tornando-se a pessoa mais velha a aparecer em uma película.
Cada vez mais procuramos a fórmula da longevidade. Cuidamo-nos com alimentos saudáveis, exercícios físicos regulares, atividades intelectuais e tentamos ficar livre dos vícios. Jeanne não cresceu com essa mentalidade e fumou dois cigarros por dia durante 95 anos. A ciência está desconfiada de que, apesar de bons hábitos serem importantes, o que determina quem vai viver mais de 100 anos são nossos genes. E não é a presença de genes da longevidade que marca um felizardo, mas sim a ausência de certos genes ligados a problemas do coração, câncer e doenças degenerativas. Enquanto não somos capazes de fazer um teste e descobrir se fomos abençoados pela genética ou mesmo como podemos tornar nossos genes melhores, o fundamental é que vivamos com alegria, pois o bom-humor sempre foi marca registrada de Jeanne Calment.

[Aos 110 anos]: “Eu só tenho uma ruga, e estou sentada em cima dela”.       
Jeanne Calment (1875-1997)       

15 de dez. de 2012

Perfis de Mulher: Ada Lovelace


No dia 10 de dezembro, eu e mais muitas pessoas fomos surpreendidos quando acessamos o Google. O “doodle” (jeito estilizado de exibir a marca Google) do dia homenageava Ada Lovelace, desconhecida para mim até então. Foi só quando, curiosa, fiz uma busca por seu nome que descobri que ela se destacou em uma área que até hoje sofre com a escassez de mulheres: a computação. 
Nascida Augusta Ada Byron em 1815, era a única filha do famoso poeta Lord Byron com Annabella. Lord Byron desejava ter um filho homem, porém, mesmo com a decepção, escolheu o nome do meio “Ada” para a menina, pelo qual ela ficaria conhecida mais tarde. Seus pais se separaram quando ela tinha apenas um mês e, apesar de a lei inglesa dar a guarda da criança ao pai, Byron não manifestou esse desejo, saindo logo da Inglaterra e morrendo quando Ada tinha oito anos. Annabella mostrava-se como uma mãe carinhosa e preocupada para a sociedade, mas deixava a filha sempre sob os cuidados da avó.
Com o intento de cultivar a mente da menina e evitar que ela fosse igual ao pai, sua família ofereceu-lhe tutores particulares que lhe ensinaram matemática. Em sua adolescência, Ada era também vigiada de perto por alguns amigos da mãe que tinham essa incumbência. Annabella não perdia uma oportunidade de desmoralizar Byron e fazer com que a filha odiasse o pai que não conheceu e cuja fotografia só viu depois dos vinte anos.
Através da amiga e pesquisadora Mary Sommerville, Ada foi apresentada ao matemático e professor de Cambridge, Charles Babbage. Ela traduziu um artigo em italiano sobre o computador analítico projetado por Charles e foi a responsável por explicar o funcionamento geral da máquina, de modo que suas notas explicativas acabaram ficando maiores que o próprio artigo original. Através deste escrito, Ada manifestou sua ideia de que a função dos computadores poderia ir bem além de fazer cálculos. Apesar de a máquina nunca ter sido construída, Ada tornou-se a primeira programadora da história e pioneira na área de processamento de dados.
Outras aventuras no campo da matemática, realizadas sem sucesso ou nem sequer terminadas, incluem um estudo envolvendo matemática e música, uma investigação sobre ondas cerebrais e uma tentativa de usar sequências e equações para prever resultados em jogos de apostas. Neste último caso, Ada formou um sindicato com amigos e apenas o que conseguiu foram dívidas.
Ada casou-se aos 19 anos com William King, tornando-se a Baronesa King. Quando o marido adquiriu um novo título de nobreza, ela passou a ser conhecida como Condessa de Lovelace, usando agora esse sobrenome. Eles tiveram três filhos. Muito se fala sobre a infidelidade de Ada e o afastamento de seu marido nos últimos meses de vida dela pode ter sido causado por uma confissão de adultério no leito de morte.
Ada Lovelace faleceu aos 36 anos, vítima de câncer de útero. Novamente e pela última vez ela ficou à mercê da mãe, que impediu muitos amigos de visitarem-na. Seu último desejo, certamente para desespero da mãe, foi ser enterrada ao lado do pai. Hoje algumas pessoas duvidam da contribuição e da importância de Ada para os programas de computação, mas é impossível desprezar sua incrível capacidade matemática e suas ideias visionárias.
Um programa de computador desenvolvido nos anos 80 foi batizado de Ada em sua homenagem. Ela também serviu de inspiração para medalhas e programas de incentivo à incursão das mulheres nas ciências exatas. A moça tem até um dia dedicado a ela, no meio de outubro. Afinal, a primeira programadora da história merece.
Livro inspirado pela história de Ada

“Eu nunca estou realmente satisfeita com meu entendimento de alguma coisa; porque, entendendo isso bem, minha compreensão pode ser só uma fração infinitesimal de tudo que eu quero entender sobre as muitas conexões e relações que me ocorrem, como o problema em questão foi pensado de início ou surgiu, etc,etc.”


Ada Lovelace (1815 – 1852)          

8 de dez. de 2012

Perfis de Mulher: Princesa Isabel


Recentemente, a princesa Isabel foi uma das finalistas do concurso exibido na televisão “Omaior brasileiro de todos os tempos”. A razão de tamanha admiração por esta figura real, tão distante de nós, é o fato de ela ser considerada a redentora dos escravos, tendo abolido a escravidão em 13 de maio de 1888. No entanto, apesar desse feito importante, ela merece destaque por uma série de fatos, entre eles o de ter sido a primeira mulher a governar o Brasil.
Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu em 29 de julho de 1846, a segunda filha do imperador Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Com a morte de seu irmão mais velho, ela foi proclamada oficialmente a herdeira do trono aos quatro anos de idade. Sua infância foi marcada por uma educação rígida, sendo que ela e a irmã Leopoldina não podiam frequentar festas ou espetáculos de teatro.
Quando Isabel completou 18 anos, seu casamento foi arranjado. Numa situação incomum para a época, ela e a irmã puderam escolher seus futuros maridos e acabou que elas ficaram com o pretendente uma da outra, sem que houvesse desentendimentos. Pouco mais de um mês após a chegada do noivo, Luís Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o conde d’Eu, ao Rio de Janeiro, foi realizado o casamento. Com a lua-de-mel veio a mudança na vida da princesa: ela conheceu vários países da Europa e passou a participar de recepções e bailes.
De volta ao Brasil, o conde d’Eu insistiu junto a D. Pedro para ir lutar na Guerra do Paraguai, o que Isabel reprovou. Entretanto, em 1869 ele foi para o campo de batalha, voltando vitorioso menos de um ano depois. No ano seguinte Isabel assumiu pela primeira vez a regência, devido a uma viagem de seu pai. Durante esse seu primeiro governo foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que libertava todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data. Anos antes, no dia de seu casamento, Isabel já havia alforriado os escravos que trabalharam para ela.    
A cada nova regência, Isabel se mostrava mais madura para governar e tinha novas ideias, a maioria trazidas de suas viagens para a Europa, sobre como modernizar o país. Apesar de alguns avanços, o ideal republicano ganhava cada vez mais adeptos. Cresciam também as campanhas abolicionistas e Isabel pressionava o Ministério conservador, levando o ministro a demitir-se. A nova manobra da regente foi propor a Lei Áurea, aprovada sem problemas na câmara e no senado. Seu feito foi comemorado em todo o país, no entanto, o Barão de Cotegipe, o ministro demitido, fez essa profecia a Isabel: “ganhou a partida, mas perdeu o trono!”
A abolição fez o Império perder o apoio dos fazendeiros. Antes disso, já havia perdido importantes grupos, como os militares e os religiosos. A proclamação da república, assim como a própria abolição, era questão de tempo. Em 15 de novembro de 1889 ela foi proclamada e a família real foi para o exílio na Europa. Dom Pedro II, Isabel, o conde d’Eu, seus três filhos, todos nascidos depois dos 30 anos da princesa, pela última vez viram o Brasil. Isabel, que era tão cara ao nosso país, não pode sequer voltar após o fim do banimento da família real. Em 1921, ela faleceu em Paris, ainda com as doces lembranças do Brasil e a certeza de que havia feito a coisa certa.  

1 de dez. de 2012

Perfis de Mulher: Mabel Normand


Se fosse necessário apontar uma pioneira na área da comédia, esta com certeza seria a atriz de cinema mudo Mabel Normand. Um dos mais importantes ícones de seu estúdio e de sua era, ela não apenas fez multidões rirem, mas também criou diversas situações cômicas ao escrever e dirigir alguns filmes. Sem ela, também, provavelmente Chaplin não teria chance no cinema e alguns dos momentos mais preciosos da sétima arte nunca teriam sido criados. Em paralelo às comédias que interpretava nas telas, Mabel enfrentava dramas em sua vida pessoal.
Nascida Amabel Ethelreid Normand em Staten Island, perto de Nova York, sua data de nascimento é controversa: parentes dizem ser 1892, enquanto as publicações de quando ela estava no auge diziam 1894 ou 1895. Era a filha mais nova de várias gestações malfadadas. Quatro filhos sobreviveram ao parto e apenas três chegaram à idade adulta. Aos 14 anos Mabel deixou o colégio interno, longe de casa, para trabalhar como modelo e ajudar financeiramente a família, tendo tempo apenas para estudar desenho e música à noite. Seu pai era carpinteiro e músico itinerante e Mabel queria ser uma grande musicista.
Em 1910 ela conseguiu alguns trabalhos como extra em estúdios de cinema e logo evoluiu para papéis maiores. Seus primeiros empregadores e colegas de cena ensinaram-lhe muito, embora ela já tivesse aprendido várias expressões faciais, tão essenciais no cinema mudo, durante sua experiência como modelo. Nesse tempo ela atuou com igual sucesso em dramas e comédias, tornando-se logo ídolo das plateias.
Sua predisposição para a comédia falou mais forte e, quando foi para a Califórnia, logo se juntou ao recém-fundado estúdio Keystone. Seus trabalhos lá eram basicamente filmes curtos e que causavam riso fácil. Sua persona cinematográfica se consolidou nesta época: Mabel, a personagem, era uma moça espoleta que vivia as mais loucas situações, que exigiam que Mabel, a atriz, fizesse cenas arriscadas sem dublê.   
No final de 1913, Mabel era a mais importante estrela feminina do estúdio, mas seu chefe, Mack Sennett, sofria com a perda de dois atores que foram tentar carreira solo. Para substitui-los, ele foi até a Inglaterra e contratou um comediante do teatro, chamado Charles Chaplin. Reza a lenda que Sennett detestou os primeiros trabalhos de Chaplin para o estúdio e queria demiti-lo, mas Mabel insistiu para que Charlie ficasse. Esta passagem é retratada no filme “Chaplin” (1992), em que Mabel foi interpretada por Marisa Tomei. O ator permaneceu no estúdio, Mabel tornou-se sua melhor amiga e ele foi ganhando prestígio e o melhor, liberdade criativa.
Em meio a alguns de seus maiores sucessos, como “Mickey” (1918), feito em sua própria produtora, Mabel viu-se no meio dos maiores escândalos de sua época. Em 1921, seu antigo colega de trabalho Roscoe “Fatty” Arbuckle foi acusado de estupro e assassinato de uma jovem atriz em uma festa, gerando um debate inédito sobre a moral nos filmes e a conduta dos atores. No ano seguinte, o diretor William DesmondTaylor, que estava lhe ensinando muito sobre artes, foi assassinado e Mabel foi a última amiga a vê-lo com vida. Muitos questionaram o envolvimento dela com o diretor e levantaram a hipótese de o culpado ter cometido o crime por ciúmes de Mabel. Logo no início de 1924 seu motorista atirou em um magnata que havia feito um comentário maldoso sobre ela. E, no mesmo ano, ela foi apontada como pivô de uma separação, o que mais tarde foi comprovado ser uma acusação falsa.
Todos esses problemas geraram consequências para Mabel, embora seu envolvimento fosse mínimo. O destaque dado a ela pela imprensa acabou ajudando a divulgar alguns de seus filmes que viraram sucesso de bilheteria, mas a cada nova confusão ela se tornava mais triste e sua atuação tinha mais traços de sofrimento. O fracasso de sua única peça, feita em 1925, também não ajudou.
Sua saúde começou a declinar já em 1915, quando ela sofreu uma concussão mal explicada na cabeça. Há quem diga que foi a amante de Mack Sennett, então noivo de Mabel, que tenha atirado um objeto na cabeça da atriz. Depois de um tempo no hospital, ela começou a tomar remédio para aliviar a dor, viciando-se no medicamento. Algumas fontes citam que ela também seria viciada em cocaína e foi o desejo de livrar-se do vício, e não o interesse por livros, que a fez se aproximar de William Desmond Taylor. Assim como muitas estrelas da época, ela também não levava uma vida regrada, alimentando-se de forma errada e participando de festas selvagens que duravam a noite toda. Todos esses fatores, aliados a fraturas ocorridas em suas cenas sem dublê, levaram-na a contrair pneumonia em 1923, tendo uma recaída quatro anos depois. A pneumonia evoluiu para uma tubercolose que acabou por matá-la em 1930.
Mabel e Lew Cody
Novamente há muitos boatos sobre a vida amorosa de Mabel. Sua relação com Chaplin e o magnata Samuel Goldwyn ainda é motivo de controvérsia. Sennett, seu ex-noivo, jamais se casou. Estando em Paris em 1922, ela foi pedida em casamento por um príncipe egípcio, mas recusou. Em 1926, casou-se com Lew Cody, com quem já havia contracenado. Os dois tinham grandes diferenças e viviam separados, mas Cody, assim como seus muitos amigos de Hollywood, foi de total importância para Mabel em seus tempos difíceis. Cody faleceu em 1934, vítima de problemas cardíacos. Sem viver para enfrentar as mudanças causadas pela chegada do som ao cinema, Mabel Normand deixou um legado de comédias que ainda divertem e uma história de vida que ainda emociona.