Mostrando postagens com marcador Letícia Magalhães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Letícia Magalhães. Mostrar todas as postagens

24 de nov. de 2012

Perfis de Mulher: Frida Kahlo


São poucas as mulheres que se destacam nas artes plásticas, não importa a época. Quando pensamos em pintura vêm logo às nossas mentes nomes como Leonardo da Vinci, Rembrandt, Picasso ou mesmo Andy Warhol. Contemporânea destes últimos é a mais lembrada pintora do século XX, a mexicana Frida Kahlo enfrentou muitos obstáculos na tentativa de fazer sua arte e ser feliz.
Nascida Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón em 1907, era a terceira de quatro filhas de um imigrante alemão e uma descendente de índios. Ela tinha mais duas meio-irmãs do primeiro casamento do pai e todas moravam juntas em Coyocán, perto da Cidade do México. Frida foi testemunha da violência da Revolução Mexicana (1910-1917), mas a realidade de seu país não era tão trágica se comparada à sua própria vida. Aos seis anos contraiu poliomielite, ficando com a perna direita mais fina que a esquerda. Aos 18 sofreu um grave acidente de trânsito: o ônibus em que ela estava colidiu com um bonde. Frida teve fraturas na perna direita, na coluna, nas costelas, na pélvis e nos ombros, passando por 35 cirurgias ao longo da vida para corrigir defeitos deixados pelo acidente.
Se o acidente foi horrível para sua saúde, foi de certa forma o propulsor de sua carreira. Imobilizada durante muito tempo, Frida desistiu de ser médica e começou a pintar para distrair-se, com o total apoio dos pais. Sua obra é composta de muitos autorretratos e contém diversas influências, entre elas simbolos indígenas e referências às religiões do pai e da mãe, respectivamente judaísmo e catolicismo. Enquanto alguns trabalhos apresentam cores bem fortes, outros têm poderosas sugestões da dor excruciante que a acompanhou a vida toda.
Encantada com o pintor Diego Rivera, Frida se aproximou dele em 1927 e mostrou-lhe alguns de seus trabalhos, os quais ele elogiou. Depois de algumas conversas sobre arte ele passou a frequentar a casa dela e a ajudá-la com suas pinturas, sem impedi-la de desenvolver seu próprio estilo. Eles se casaram em 1929, indo contra o desejo da mãe da noiva, e tiveram uma relação tumultuada. Ambos tinham casos fora do casamento e Frida se relacionava também com mulheres. Eles se divorciaram em 1939, mas voltaram a se casar menos de um ano depois. Frida engravidou três vezes, mas teve de interromper as três gestações porque o acidente em sua adolescência deixou-lhe com problemas reprodutivos.    
Sua vida não foi muito glamurosa. Entre os principais fatos está ter conhecido o líder comunista Leon Trotsky que, após ser expulso da URSS, viveu com Frida e Diego como refugiado. Seu único reconhecimento em vida deu-se em 1939, quando o Museu do Louvre comprou um de seus quadros para uma exibição de pintura surrealista. Aos 47 anos, após amputar a perna direita e sofrer com broncopneumonia, Frida faleceu em sua casa. Diego, apesar de 21 anos mais velho, viveu ainda mais três anos. As cinzas da pintora estão em sua casa na Cidade do México, onde também funciona um museu em sua homenagem.
As obras de Frida Kahlo só começaram a ser descobertas na década de 1980 e logo ganharam o mundo. Hoje há pinturas suas nos mais importantes museus do planeta. Livros, ensaios, músicas e teses foram escritos sobre ela. Sua vida virou filme duas vezes: uma em sua terra natal, em 1983, e outra em Hollywood em 2002, com Salma Hayek no papel principal. Frida virou peça de teatro e até ópera. Merecido reconhecimento, afinal, esta pintora teve nome e vida de heroína.      
“Eu pinto a mim mesma porque estou tão frequentemente sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
Frida Kahlo (1907-1954) 

17 de nov. de 2012

Perfis de Mulher: Martha Gellhorn


Uma das mais competentes jornalistas do século XX, Martha Gellhorn foi correspondente de guerra quando as mulheres ainda lutavam por seus direitos nos campos de batalha urbanos. Em mais de 60 anos de carreira, ela cobriu os principais conflitos de sua época e usou seu talento para escrever 21 livros, entre novelas e coletâneas de seus artigos.
Martha Ellis Gellhorn nasceu em 1908, filha do meio de uma sufragista e um ginecologista descendente de judeus. Seus dois irmãos também tiveram carreiras brilhantes, um como professor universitário no curso de Direito e outro como oncologista. Ela foi estudar na famosa universidade feminista Bryn Mawr, mas não acabou o curso.
Com a intenção de se tornar correspondente estrangeira, Martha foi para a Fança em 1930, ficando dois anos por lá. Voltou para ajudar o governo americano a ter um retrato exato de como a Depressão econômica havia afetado a população. Os frutos de sua investigação foram tão originais que chamaram a atenção da primeira-dama Eleanor Roosevelt, de quem Martha se tornou amiga.
Ela já estava na Europa cobrindo a Guerra Civil Espanhola quando Hitler deu início à Segunda Guerra Mundial. Desde a experiência na França ela havia se tornado pacifista, mas mesmo assim Martha fez questão de acompanhar o conflito de perto, fazendo de tudo para estar ao lado da notícia. Boa observadora, ela se preocupava muito mais em relatar os sofrimentos dos civis em meio à guerra que os conflitos nas trincheiras, embora ela estivesse presente em vários momentos importantes, como em um bombardeio dos ingleses em território alemão e até mesmo no “Dia D”, de desembarque das tropas aliadas na Normandia, ocasião em que ela ajudou os feridos carregando-os em macas.
Selo de 2007. Martha foi a única mulher a figurar entre os jornalistas homenageados
Sempre atuante em causas políticas, Martha atacou os governos dos presidentes americanos Nixon e Reagan, além do fascismo, racismo e caça aos comunistas. Ela sempre foi favorável à esquerda política, embora seus sentimentos em relação ao comunismo tenham sido controversos, uma vez que ela nem o criticou nem elogiou. Por ter sido uma das primeiras repórteres a entrar no campo de concentração de Dachau após sua libertação, Martha também se tornou simpatizante da causa dos judeus e a luta pela criação do Estado de Israel, inclusive pensando em mudar-se para o país em sua velhice.  
Martha Gellhorn casou-se duas vezes. Seu primeiro matrimônio foi com o escritor Ernest Hemingway, que conheceu em 1936 e com quem viveu entre idas e vindas durante quatro anos até a oficialização do casamento. Ernest nem sempre gostava das ausências de sua terceira esposa quando ela estava viajando. Ela também não gostava de estar sempre associada ao seu marido e quando era convidada para entrevistas, exigia que o nome de Ernest não fosse pronunciado. Eles ficaram casados durante os turbulentos anos da guerra e se separam em 1945. Um filme sobre a relação desses dois ícones foi feito para a TV em 2012, com Nicole Kidman no papel de Gellhorn e Clive Owen como Hemingway.
Martha casou-se novamente em 1954 com um editor da Time Magazine, Tom Matthews. Ele se tornou o padrasto do garoto Sandy, que ela havia adotado em um orfanato italiano cinco anos antes. Apesar de ser uma mãe esforçada, ela deixava o filho longos períodos com parentes para fazer suas reportagens, gerando certo afastamento entre eles. Martha divorciou-se de Tom em 1963, mas continuou vivendo em Londres, cidade em que havia se estabelecido com ele, até 1998, quando, sofrendo de câncer e totalmente cega, suicidou-se com uma overdose de remédios.
Hoje vemos inúmeras mulheres dominando a apresentação de telejornais e as redações de grandes editoras. Temos diversas correspondentes estrangeiras e repórteres de renome. Todas elas devem um pouco de seu prestígio a Marta Gellhorn, uma verdadeira mulher de fibra.

“Cidadania é uma tarefa complicada que obriga o cidadão a formar sua própria opinião e defendê-la”.
Martha Gellhorn (1908-1998)    

10 de nov. de 2012

Perfis de Mulher: Clara Nunes


A voz do Brasil? Sem dúvida, a voz que melhor cantou as coisas do Brasil: o samba, o mar, a religiosidade, o romantismo e a alegria. Uma exuberância sem igual, vestida como uma praticante da umbanda, sem a produção exagerada de suas contemporâneas, Clara Nunes conquistou o mundo em menos de 40 anos de uma existência intensa.
Nascida Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, num distrito da cidade de Paraopeba, em Minas Gerais, era a caçula de sete filhos. Tendo ficado órfã muito pequena, ficou sob a tutela de dois irmãos, mas teve de se mudar para a casa de outra irmã, em Belo Horizonte, quando seu irmão matou um namoradinho dela. Tragédias à parte, já na infância Clara mostrava ter talento, pois ganhou um concurso de canto aos dez anos, em 1952, e se apresentava sempre no coral da Igreja.
Em Belo Horizonte, trabalhando como tecelã de dia e estudando à noite, Cara foi descoberta por um violinista que, empolgado, levou-a a vários programas de rádio. Seria aos 18 que ela teria o talento reconhecido ao vencer a etapa mineira de um concurso de rádio, ficando com o terceiro lugar na etapa nacional. Dessa vez ela deixou seu trabalho como tecelã para se apresentar na Rádio Inconfidência, sendo considerada por três anos consecutivos a melhor cantora de Minas Gerais. Já assinava o sobrenome Nunes, da família materna. Apareceu no programa de Hebe Camargo antes de ganhar seu próprio programa em uma TV local, em que recebia grandes nomes da música brasileira.
Aos 23 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Sem preconceitos, apresentou-se em bares, casas noturnas e escolas de samba do subúrbio. No mesmo ano ela assinou contrato com a gravadora Odeon e lançou seu primeiro LP, “A Voz Adorável de Clara Nunes”, um fracasso de vendas devido à insistência da gravadora para que o repertório fosse de músicas românticas, como boleros. Três anos depois, a consagração: seu segundo LP, além de ser um sucesso, foi sua porta de entrada para o mundo do samba.
Em 1970 Clara se tornou uma artista internacional ao se apresentar em Angola. Na capa de seu novo LP, o quarto da carreira, ela apareceu com roupas relacionadas às vestimentas afro-brasilerias e passou a adotar esse estilo. Nos anos seguintes, com a venda de LPs aumentando a cada novo lançamento, a cantora foi convidada a se apresentar na televisão de Portugal e também na Suécia e França.      
Seu disco “Alvorecer” vendeu mais de 300 mil cópias, quebrando o tabu de que mulheres não vendiam LPs no Brasil. No mesmo ano, 1974, Clara participou da peça “Brasileiro, Profissão Esperança”, sobre a cantora Dolores Duran. Nos anos seguintes, gravou sua primeira composição própria, “À flor da pele” e participou do lendário show do Riocentro, espetáculo em prol da anistia durante o qual um atentado foi planejado, mas não ocorreu como o esperado. Ela também voltou a Angola e se apresentou na Alemanha e na TV japonesa.  
Clara casou-se com o poeta, compositor e produtor Paulo César Pinheiro em 1976 e, após três abortos espontâneos, teve de se submeter à retirada do útero. Com a negação do sonho de ser mãe, ela focou-se cada vez mais na carreira, obtendo sucesso até o último dia. Em 1983 ela se submeteu a uma cirurgia para retirar varizes que a incomodavam. Um componente do anestésico causou-lhe um choque anafilático que provocou a dilatação de seus vasos sanguíneos, resultando em um edema. Após o problema ser controlado, a cantora permaneceu em coma por 28 dias durante os quais as mais estapafúrdias teorias sobre a causa do coma surgiram entre seus fãs e a imprensa. Clara, temerosa de tomar uma anestesia peridural devido ao risco de ficar paraplégica caso tivesse uma reação, insistiu por uma anestesia geral. Em 2 de abril de 1983, Clara faleceu, dando início a um grande tumulto e comoção durante seu velório, ocorrido na quadra de sua escola de samba do coração, a Portela.     
Mesmo depois da morte, vários discos foram lançados com gravações da cantora, trazendo-lhes novos fãs. Outros álbuns surgiram em sua homenagem, incluindo “Clara Nunes com vida”, em que outros cantores gravaram duetos póstumos com ela. Sua voz também se fez ouvir em diversas coletâneas de música brasileira lançadas em outros países. Sua história virou musical e livro.
O distrito de Cedro, onde Clara nasceu, emancipou-se e adotou o nome de Caetanópolis. Graças ao esforço da primogênita da família, hoje essa cidade conta com uma creche, um acervo, uma casa da cultura, um memorial e um festival em homenagem a ela, que perpetuam o legado desta inesquecível brasileira.   

3 de nov. de 2012

Perfis de Mulher: Maila Nurmi, a Vampira

Ainda no clima de Dia das Bruxas, vem a lembrança de uma pioneira no gênero de terror na televisão: a Vampira. Uma verdadeira rainha do grito, ela se tornou uma figura cult em apenas um ano em que seu programa ficou no ar. Com uma vida nem sempre glamourosa e um visual difícil de esquecer, Maila Nurmi nunca se diferenciou de sua macabra e divertida criação.

Nascida Maila Elizabeth Syrjäniemi em 1922, na Finlândia, adotou o sobrenome Nurmi após alegar que era sobrinha do atleta Paavo Nurmi, um recordista em corridas de longa distância. Maila mudou-se para os Estados Unidos com a família aos dois anos de idade, vivendo em várias cidades até se instalar em Los Angeles.
Na juventude foi modelo do famoso pintor Alberto Vargas e apareceu na Broadway, chamando atenção em um show de horror chamado “Spook Scandals”, que incluía um exagero na atuação de Maila, mas ainda não foi desta vez que ela estourou como símbolo vamp. Até meados da década de 1950, ela trabalhou como modelo pin-up para fotos de revistas e também em chapelarias de clubes de Hollywood.

Foi em uma festa a fantasia que sua sorte mudou. Maila estava vestida de Morticia Adams e um produtor de TV, interessado em uma apresentadora para sessões de filmes de terror, ficou enfeitiçado por ela. Depois de conseguir o telefone dela, o produtor expôs sua ideia, que foi prontamente aceita. O nome Vampira foi sugestão do então marido de Maila, um ex-ator mirim que se tornou roteirista. O visual continuou tendo inspiração em Morticia e também na bruxa da Branca de Neve, mas Maila adicionou, como ela própria mais tarde declarou, um toque de comicidade e um jeito “trash” de atuar.
Em 1954 estreava The Vampira Show, um dos mais bizarros programas já exibidos na televisão americana. Vampira descia as escadas, gritava, usava roupas pretas justíssimas, fazia trocadilhos infames, brincava com sua aranha de estimação e finalmente dava uma breve e irônica introdução para o filme da noite. A série durou apenas uma temporada, mas Vampira virou assunto de muitos artigos de jornais e revistas e objeto de adoração de vários fã-clubes. Ela também foi indicada ao Emmy como “personalidade do ano”.


A partir daí a existência de Maila passou a girar em torno de Vampira. Em 1956 ela participou daquele que é considerado o pior filme do mundo, “Plano 9 do Espaço Sideral”. Maila era amiga do ator principal, Bela Lugosi, o famoso primeiro intérprete de Drácula, que morreu durante as filmagens de Plano 9. Os bastidores desse filme, assim como alguns momentos do show de Vampira, são recriados em “Ed Wood”(1994), cinebiografia do diretor de mesmo nome. No filme Maila é interpretada por Lisa Marie.
Depois do sucesso, Maila passou a instalar pisos de linóleo quando suas aparições como Vampira não eram mais requisitadas. No fim dos anos 1960 ela abriu uma espécie de boutique como o nome “O Sótão da Vampira” para vender antiguidades, além de joias e roupas feitas à mão, que em 2001 evoluiu para um negócio na Internet, que incluía peças autografadas.

A vida de Maila teve apenas alguns pontos mencionados à exaustão. Após a morte prematura do astro James Dean em 1955, Maila declarou que era sua amiga, algo que muitas fontes vieram a confirmar e outras a contestar. Outra situação em que ela voltou a ser destaque foi a polêmica com uma emissora de TV que nos anos 80 a contratou para discutir uma volta de seu show, mas no meio das negociações ela soube que Vampira seria interpretada por outra atriz. Não deixando a emissora usar o nome Vampira, coube à substituta atuar sob o nome Elvira, mas ainda assim ela recebeu críticas de Maila.
Apesar de ter tido, literalmente, quinze minutos de fama, Maila Nurmi permaneceu como Vampira no imaginário popular. Após o cancelamento de seu show, estações de TV locais começaram a ter seus filmes de terror apresentados por cópias de Vampira e muitas bandas fizeram músicas em sua homenagem. Sua personagem surgiu antes mesmo de Marticia Adams ir para a televisão e a matriarca interpretada por Carolyn Jones nos anos 60 tem toques de Vampira. Maila deu muitas entrevistas relacionadas a seu trabalho até falecer em 2008, após três casamentos, sem deixar herdeiros, mas nos legando a personagem mais divertidamente sombria da televisão.
Maila Nurmi (1922 - 2008)

27 de out. de 2012

Perfis de Mulher: Agatha Christie


A rainha do suspense é a autora que vendeu mais livros na história segundo o Guinness Book: foram quatro bilhões de cópias em mais de cem idiomas. Sua peça “A Ratoeira” sustenta outro recorde: está há 60 anos em cartaz, somando mais de 24 mil apresentações. Seus trabalhos mirabolantes  e interessantíssimos serviram de base para 34 filmes, além de séries de animação japonesas, videogames e programas de televisão. E olhe que a vida de Agatha não perde em nada para suas histórias.
Nascida Agatha Mary Clarissa Miller em 15 de setembro de 1890, era a terceira e última filha de um casal da classe média-alta inglesa. Foi educada em casa, aprendeu a ler, escrever e tocar piano com sua mãe e passava a maior parte do tempo sozinha, lendo ou brincando com animais. Quando seu pai morreu, Agatha tinha apenas 11 anos e foi pela primeira vez para a escola, não se adaptando à disciplina rígida da instituição. De volta para casa, com seus irmãos já morando fora, ela foi enviada para estudar em Paris.
Aos 20 anos começou a procurar um marido por insistência da mãe. Enquanto a busca não tinha sucesso, Agatha escreveu e atuou em algumas peças de teatro amador e também escreveu poemas. Seu próximo passo foi criar histórias curtas com seus temas favoritos, que incluíam espiritualidade e experiências de viagem. Todas essas histórias, assim como seu primeiro romance, foram rejeitados pelos editores a quem os enviou.
Em 1912 conheceu Archibald Christie, um indiano que fazia parte do exército, e se casou com ele na véspera de Natal de 1914, já durante a Primeira Guerra Mundial, da qual Agatha participou sendo enfermeira voluntária. Com Archibald ela teria sua única filha, Rosalind.
Em 1919, finalmente, ela viu seu primeiro romance publicado: “O Primeiro Caso de Styles”, em que surge seu mais famoso personagem, Hercule Poirot, um detetive belga inspirado nos refugiados da Bélgica que ela conhecera durante a guerra. Poirot seria o protagonista de 33 de seus livros, além de 54 contos. Ele também tem a honra de ser o único personagem fictício a receber uma nota no obituário do New York Times quando da publicação do último romance de Agatha com Poirot, Curtain, em 1975. No entanto, mais de uma vez Agatha confessou estar cansada do personagem!
Outra investigadora famosa na galeria de Agatha é Miss Marple, uma senhorinha pessimista baseada na avó da escritora. O que também sempre está presente nas obras é uma investigação que termina com uma revelação surpreendente. Certa vez Agatha declarou que escrevia seus livros até o penúltimo capítulo, analisava os personagens para ver quem era o menos suspeito e depois de escolher o culpado voltava e completava os outros capítulos com algumas provas incriminatórias.   
Uma das paixões de Agatha, a arqueologia, está presente em vários de seus livros. Embora ela já tivesse visitado o Egito em 1910, foi só em 1930, quando conheceu seu segundo marido, Max Mallowan, que ela realmente começou a se interessar pelo assunto. Outra marca de sua experiência pessoal em livros é o uso de venenos em alguns romances escritos após a Segunda Guerra Mundial, durante a qual ela trabalhou em uma farmácia de uma universidade londrina.
O primeiro marido deixou-a em 1926, trocando-a por outra mulher. No mesmo dia em que o marido saiu de casa, Agatha viajou para Yorkshire sob um pseudônimo e sem avisar ninguém, deixando centenas de fãs apreensivos por seu sumiço, que foi um caso bastante difundido pela imprensa nos 11 dias em que ninguém soube notícias dela. Até hoje se especula porque ela sumiu: muitos fãs interpretaram como uma jogada de marketing ou forma de culpar o marido por um suposto assassinato; outros simplesmente aceitam a hipótese de um colapso nervoso, e ainda outros acham que Agatha queria apenas assustar o marido e não causar comoção nacional. Esse episódio foi desenvolvido ficcionalmente no filme “Agatha” (1979), com a atriz Vanessa Redgrave interpretando a escritora, e também num episódio da série “Dr. Who” em que o sumiço é interpretado como consequência da ligação com um alien.       
Agatha com o segundo marido
Agatha Christie faleceu em 1976, cinco anos após receber o título de “dama” da coroa britânica. Lembrada e homenageada tantas vezes ao redor do mundo, a autora nos legou 66 romances e 15 coletânea de contos. Sabendo entreter e surpreender como ninguém, toda vez que abrimos um livro de Agatha descobrimos um novo mundo e temos a oportunidade de sermos nós mesmos grandes detetives.     

"A melhor receita para o romance policial: o detective não deve saber nunca mais do que o leitor."
Agatha Christie (1890 – 1976)                                           

20 de out. de 2012

Perfis de Mulher: Maria Antonieta


Rainha odiada pelo povo e por outros membros da nobreza, Maria Antonieta morreu guilhotinada durante a Revolução Francesa, com apenas 37 anos. Mais de um século depois se tornou ícone, aparecendo em diversas mídias. No entanto, sua imagem ainda está cheia de interpretações incertas. Tendo a responsabilidade caído em seu colo ainda muito jovem, ela teve uma das vidas mais intensas do século XVIII.
Nascida Maria Antônia Josefa Joana de Habsburgo-Lorena, era a décima quinta e penúltima filha do casal imperial da Áustria. Foi naturalmente muito mimada na infância, embora sua educação não fosse muito rígida. Teria sido uma criança espontânea até que, ao perder o pai com dez anos de idade, viu sua mãe mudar de comportamento e passar a vigiar os filhos com rigidez. Foi a mãe também que arquitetou o casamento de Maria Antonieta com o delfim da França, futuro rei Luís XIV, quando a menina tinha apenas 14 anos.
O casamento foi feito por procuração e oficializado em uma cerimônia um mês depois. Sem nunca ter visto o marido, Maria Antonieta ficou decepcionada ao perceber que ele era bem diferente dos retratos que ela recebera. Inseguro, sem vocação para governar, ele nutria um profundo preconceito pelos austríacos, um dos motivos apontados para ele ter demorado três anos para consumar o casamento com Maria Antonieta.  
Aos 18 anos era rainha da França. Sem grande importância política, cabia a ela vez ou outra tentar convencer o marido a beneficiar os interesses austríacos, o que era severamente criticado pelo povo francês. As críticas também vinham de sua mãe, Maria Teresa, e do irmão, José II, que se incomodavam com a falta de relações sexuais entre Antonieta e Luís XVI. Ao mesmo tempo circulavam panfletos pelas ruas da França maldizendo os gastos da rainha, os bailes que ela frequentava, seu círculo de amizade e até mesmo sua tentativa de levar uma vida mais simples, quando construiu uma pequena vila ao lado de um palacete da família real.    
A situação da França foi se tornando insustentável. Os séculos de monarquia e esbanjamento, as crises econômicas, a seca: tudo aumentou o descontentamento do povo, que em 1789 iniciou a revolução. Sempre temendo por sua família, Maria Antonieta foi envelhecendo rápido conforme as preocupações aumentavam e as fugas eram mal-sucedidas. No início de 1793, Luís XVI foi julgado e enforcado. A rainha foi a julgamento meses depois, acusada de vários crimes e vendo seu próprio filho, que lhe havia sido retirado na prisão, depor contra ela. Ainda acreditando na legitimação divina da monarquia e dos monarcas, Maria Antonieta não esperava ser condenada. Acabou guilhotinada, mas sem perder a fé.
Apesar dos insucessos sexuais, Maria Antonieta e o rei tiveram quatro filhos. A mais nova faleceu com apenas um ano e os dois meninos morreram um com oito anos, antes da revolução, e o outro com dez, depois. Somente a filha mais velha chegou à idade adulta, mas não deixou herdeiros. O povo muito falava sobre casos amorosos da rainha tanto com homens quanto com mulheres, mas a única paixão confirmada foi o conde sueco Axel von Fersen, que jamais chegou a ter uma relação verdadeira com a soberana.
Tendo sofrido tanto e com muita resignação, Maria Antonieta entrou para a história e despertou a curiosidade geral. Foi personagem de 19 filmes. Os dois mais importantes feitos fora da França sobre a rainha datam de 1938, com a famosa atriz do cinema mudo Norma Shearer como Antonieta, e de 2006, com Kirsten Dunst no papel principal, numa releitura pop de uma das mais controversas e surpreendentes mulheres que o mundo já viu. 

“Eu era uma rainha, e tiraram minha coroa, uma esposa, e mataram meu marido, uma mãe, e levaram meus filhos para longe de mim. Tudo que sobrou foi meu sangue. Levem-no, mas não me façam sofrer mais”.
Maria Antonieta (1755-1793)

13 de out. de 2012

Perfis de Mulher: Janis Joplin


Uma artista que revolucionou a música no século XX e conseguiu uma legião de fãs teve sua carreira precocemente interrompida pela morte aos 27 anos, causada por overdose. As drogas e a bebida tolheram sua saúde e muitas vezes prejudicaram suas apresentações, mas não impediram que ela escrevesse seu nome na história da música.  
Nascida Janis Lyn Joplin em 19 de janeiro de 1943 no Texas, era a mais velha de três filhos e, segundo seus pais, sempre demandou mais atenção que os outros. Na adolescência fez amizade com um grupo de pessoas que, como ela, se sentiam excluídas pela maioria. Acima do peso e com a pele marcada pela acne, Janis era motivo constante de chacota por parte de seus colegas. Mesmo depois de famosa, ao participar de uma reunião de ex-alunos, Janis sentiu-se desconfortável e fora de seu ambiente natural.
Janis começou a cantar no coro da Igreja, como muitas outras cantoras de sucesso. Na época de estudante, no entanto, ela preferia se dedicar à pintura. No começo de 1963 ela decidiu sair da Universidade do Texas e ir para San Francisco, onde teve seu primeiro contato com as drogas. Usou muita heroína enquanto gravava suas primeiras fitas, até ser persuadida a voltar a sua terra natal para livrar-se das drogas. Lá ela até pensou em mudar de vida e estudar Sociologia, mas uma apresentação solo em Austin mudou os rumos de sua carreira.
Um promoter da banda “The Big Brother and the Holding Company” a viu e a convidou para se juntar a eles e mudar-se para a Califórnia. A primeira grande apresentação com a banda foi em um templo Hare Krishna. Janis e outros membros do grupo já estavam então há um ano usando drogas intravenosas. Depois do primeiro álbum, a banda começou uma turnê por várias cidades e participou de alguns festivais, mas foi só com o segundo disco, capitaneado por Janis, que eles alcançaram imenso sucesso: “Cheap Thrills” ficou no topo das paradas por oito semanas e vendeu um milhão de cópias em um mês.
O maior destaque dado pela imprensa a Janis em eventos e programas de televisão gerou descontentamento nos outros membros da banda. Em 1969, usando 200 dólares de heroína por dia, Janis deixou The Big Brother e formou outra banda, chamada The Kozmic Blues Band, com a qual fez uma turnê pela Europa no mesmo ano. Outro momento importante com o grupo foi a apresentação em Woodstock. Após uma espera de dez horas regada a uma mistura de drogas e bebida, Janis subiu ao palco mas não ficou feliz com sua performance, mesmo assim permaneceu até o fim do festival. Um problema semelhante ocorreu na apresentação da banda no Madison Square Garden, quando, de acordo com depoimentos, a plateia assistia a seus números sem saber se ela conseguiria chegar ao final. Na ocasião ela cantou com Tina Turner, cantora de quem Janis era fã.
Após o fim de The Kozmic Blues Band depois de um disco e menos de um ano, Janis veio para o Brasil, onde parou de beber e usar drogas e se envolveu com David Niehaus, rico estudante Americano que estava dando a volta ao mundo. Ela e Niehaus romperam após a volta aos EUA, uma vez que Janis não estava disposta a deixar a carreira em segundo plano para viajar com David e ele também não tolerava que ela usasse drogas. Então ela fundou a Full Tilt Boogie Band, com a qual iniciou uma turnê e a gravação de um álbum que não terminaria.
Janis no Brasil
Em 4 de outubro de 1970 ela foi encontrada morta em um quarto de hotel. Ela estava neste hotel de Los Angeles desde o final de agosto para a gravação do album Pearl, nome que faz referência ao apelido dado por seus amigos. Também estava noiva do estudante Seth Morgan, que na época tinha 21 anos. Poucos dias antes de morrer havia gravado uma mensagem musical para o aniversário de 30 anos de John Lennon.  Hoje a hipótese mais aceita é a de que sua morte foi causada por uma overdose accidental, visto que ela recebera um tipo de heroína muito mais forte do que estava acostumada, o que aconteceu com outros usuários na mesma época. Sua morte chocou o mundo da música, que dezesseis dias antes havia perdido o guitarrista Jimi Hendrix, também aos 27 anos.     
Comparada a grandes músicos como Elvis Presley, tinha uma presença única e elétrica. Seu disco póstumo foi um grande sucesso e influenciou inúmeras outras bandas e cantores. Seu estilo despojado virou marca dos hippies na década de 1970 e suas tatuagens abriram uma porta para que os desenhos no corpo passassem a ser melhor aceitos pela sociedade. Dezenas de compilações de suas músicas foram feitas e muitos livros foram escritos. Uma biografia lançada por sua irmã em 1992 virou peça de teatro em 2001. No ano de 1979 o filme The Rose foi feito inspirando-se na vida da cantora, mas até hoje ela ainda não ganhou sua merecida cinebiografia.   

“Quando eu canto, eu me sinto como quando você se apaixona pela primeira vez. É mais que sexo. É quando duas pessoas têm o que realmente se pode chamar de amor, quando você toca alguém pela primeira vez, mas é enorme, multiplicado por todo o público.”
Janis Joplin (1943-1970)                      

6 de out. de 2012

Perfis de Mulher: Clarice Lispector


Uma das autoras brasilerias com maior número de citações circulando pela Internet, Clarice Lispector é também uma das mulheres brasileiras mais respeitadas no exterior.
Nascida num vilarejo da Ucrânia em 1920, Clarice chegou ao Brasil ainda criança. Durante a guerra civil que se seguiu após a Revolução Russa de 1917, várias famílias judias foram perseguidas, e a de Calrice era uma delas. Já em terras brasileiras a maioria dos membros aportuguesou os nomes (o nome de batismo de Clarice era Chaya) e se instalou em Maceió, mudando para Recife três anos depois. Na capital pernambucana a mãe de Clarice veio a falecer quando ela tinha apenas nove anos, deixando na filha um forte sentimento de culpa e impotência frente à doença da mãe, sífilis, supostamente contraída após um estupro durante a guerra.
Aos 15 anos ela veio com a família para o Rio de Janeiro e, aos 17, entrou na faculdade de Direito. O curso não atingiu suas expectativas e Clarice passou a escrever para distrair-se. Em 1940, no mesmo ano da morte do pai após complicações em uma cirurgia simples, ela teve sua primeira história publicada em uma revista. Ao ver-se órfã, passou a trabalhar para sustentar-se, primeiro na Agência Nacional de imprensa, depois no jornal A Noite.
Em 1943, já com cidadania brasileira e casada com um colega da faculdade, Clarice publicou seu primeiro livro, sucesso imediato de crítica: “Perto do coração selvagem”. Pela primeira vez no Brasil um romance era apresentado através do fluxo de consciência do protagonista, deixando de lado algumas convenções na escrita. No ano seguinte à publicação, Clarice e o marido, Maury Gurgel Valente, foram morar na Europa, onde ela inclusive trabalhou como enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial.
Já em tempos mais calmos, Clarice escreveu “A Cidade Sitiada” na Suíça, mesmo país em que nasceu seu filho Pedro, que mais tarde seria diagnosticado esquizofrênico. Os tempos no país dos Alpes não foram só de alegria, uma vez que a escritora expressou seu tédio e tristeza da vida naquela época. Além disso, “A Cidade Sitiada” não foi tão bem recebida quanto o primeiro livro ou mesmo o segundo, “O Lustre”, publicado três anos antes.
Depois de mais algumas viagens e um aborto sofrido durante uma visita a Londres, Clarice e a família ficaram no Rio por um ano, quando ela publicou uma série de contos que serviria de base para seu livro “Laços de Família” e também escreveu para a revista Comício sob o pseudônimo Teresa Quadros. Depois ela ficou sete anos nos Estados Unidos, onde nasceu seu segundo filho, Paulo. Neste período não publicou nenhum livro.
Os contatos de Clarice ao longo da vida foram importantes para sua carreira e seu desenvolvimento como escritora. Do poeta e novelista Lúcio Cardoso, homossexual por quem ela se apaixonou na juventude, resultou uma amizade duradoura. Enquanto esteve nos Estados Unidos, conviveu com o também famoso escritor Érico Veríssimo e a esposa do embaixador brasilerio, filha do ex-presidente Getúlio Vargas.
Suas obras mais celebradas seriam escritas com seu retorno definitivo ao Rio, deixando o marido nos EUA. As coletâneas de contos “Laços de Família” e “Legião Estrangeira” foram lançadas ainda na década de 1960. Em 1968 Clarice participou de uma manifestação contra o enrijecimento da repressão instituída pela ditadura militar.
As obras-primas viriam nos anos finais: “Água Viva”, romance filosófico que, segundo amigos, foi o que Clarice ficou mais insegura quanto à publicação, e “A Hora da Estrela”, com sua problemática social. Reza a lenda que o cantor Cazuza gostava tanto de “Água Viva” que leu o livro 111 vezes. Em 1973 Clarice tinha sido demitida do Jornal do Brasil, juntamente com todos os judeus que lá trabalhavam. Ela escrevia colunas para o público feminino do jornal e, vendo-se desempregada, passou a fazer traduções de livros. Era fluente em inglês francês e iídiche. Além disso, também escreveu cinco livros infantis, sendo dois de publicação póstuma.
Em 1966, ela sofreu um grave acidente ao tomar pílulas para dormir e cair no sono com um cigarro aceso que incendiou sua cama. Sua mão direita quase foi amputada e a escritora passou dois meses internada. Voltaria ao hospital em 1977, pouco depois da publicação de “A Hora da Estrela”. Ela tinha um câncer inoperável no ovário e mesmo assim continuou ditando suas ideias para uma amiga. Faleceu na véspera de seu aniversário de 57 anos.
Na juventude, foi considerada uma mulher tão bela quanto Marlene Dietrich e que escrevia tão bem quanto Virginia Woolf. Celebrada no mundo todo pela inovação de seus escritos, Clarice nasceu na Ucrânia, mas sempre se considerou brasileira. Assunto de tantas teses e debates, além de livros e biografias estrangeiras, Clarice pode ganhar sua própria cinebiografia e ser interpretada por Meryl Streep. 

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector (1920-1977)

29 de set. de 2012

Perfis de Mulher: Jean Harlow


Antes de existir Marilyn Monroe, a loira sensual, havia ela: Jean Harlow, a sex-symbol platinada. Jean foi a inspiração de Marilyn e em muito suas vidas coincidem. Jean viveu apenas 26 anos, teve uma carreira que durou menos de uma década, casou-se três vezes, jamais concretizou seu amor verdadeiro, mas, de certa forma, teve mais sorte e talento que Marilyn.
Nascida Harlean Carpenter, em 03 de março de 1911, filha única e apelidada de Baby, foi criada com muitos mimos por sua mãe, de quem permaneceu muito próxima a vida toda. Aos 16 anos Jean fugiu para casar-se e foi para Hollywood. Conseguiu destaque em pequenos filmes da dupla O Gordo e o Magro, na época da transição do cinema mudo para o falado, mas seu maior sucesso veio com o filme de 1930 “Hell’s Angels”.
Jean transitava com facilidade entre o drama e a comédia, pois, ao contrário de Marilyn, nunca foi estereotipada. Um de seus maiores sucessos foi a comédia “Jantar às Oito”, de 1933. Contracenou seis vezes com Clark Gable, que a chamava de irmãzinha. Foi também durante as gravações de um filme, “Reckless”, de 1934, que ela conheceu o grande amor de sua vida: o ator William Powell.
William era 17 anos mais velho que ela, tinha um filho e duas ex-mulheres quando eles se conheceram. Jean já havia sido casada três vezes, sendo que o segundo marido, um feioso assistente de Hollywood, cometeu suicídio após uma desastrosa lua-de-mel. Apesar da tragédia, Jean não se fechou para o amor, pois seu maior sonho era ser esposa e mãe, e viu no seu relacionamento com William a possibilidade de realizar esse sonho.
As condições de sua morte, aos 26 anos, ainda são controversas. Algumas teorias apontam para alcoolismo, intoxicação pela água oxigenada que usava nos cabelos ou consequência trágica de um aborto feito anos antes, enquanto uma história bastante difundida culpa a mãe da estrela de não querer hospitalizá-la. Hoje a hipótese mais aceita aponta para falência dos rins, que foram se degenerando a partir dos 15 anos, quando Jean teve febre escarlatina. Ela não terminou seu último filme, “Saratoga”, e uma dublê foi usada para as cenas restantes. Há relatos de que, após a notícia de sua morte, houve silêncio absoluto durante três horas nos estúdios da MGM.  
Ídolo de Marilyn Monroe, havia na época da morte de Marilyn negociações para que ela interpretasse Jean nas telas. Isso só se concretizou em 1965, quando a loira foi interpretada por Carroll Baker. No mesmo ano foi publicado um livro de ficção escrito por Jean em 1934, “Today is Tonight”. Recentemente sua “figura” apareceu brevemente no filme “O Aviador” (2004), em que ela foi interpretada pela cantora Gwen Stefani. Algo esquecida atualmente, permanece viva na memória dos cinéfilos. Cada um que vê um filme com Jean se encanta com sua figura que misturava sensualidade e travessura.

“Eu não nasci atriz. Ninguém sabe disso melhor do que eu. Se eu tenho algum talento, eu tive que trabalhar duro, ouvir com atenção, fazer as coisas de novo e de novo e de novo até conseguir.”
Jean Harlow (1911-1937)

22 de set. de 2012

Perfis de Mulher: Helen Keller


Muitas mulheres conseguiram triunfar e por isso merecem ser lembradas. Algumas alcançaram o sucesso após superar grandes dificuldades. Helen Keller foi uma delas. Cega e surda, vivendo na virada do século XIX para o século XX, enfrentou muitos obstáculos até se tornar uma intelectual notável. E polêmica.
Em 27 de junho de 1880 nasceu Helen Adams Keller, uma menina perfeitamente saudável. Aos 19 meses de idade, ela contraiu uma doença, talvez meningite ou escarlatina, que a deixou cega e surda. Quando bebê a única pessoa que entendia os sinais que ela fazia era a filha da cozinheira e, com o tempo, todos na casa foram se adequando e criando um código para se comunicar com Helen. Aos oito anos, graças a um escrito de Charles Dickens e um conselho de Alexander Graham Bell, Helen foi com seu pai procurar ajuda em uma instituição para educar deficientes. Foi aí que surgiu a figura mais importante de sua vida: Anne Sullivan.
A própria Anne, aos 20 anos de idade, era cega e ex-aluna da instituição. Ela teve de enfrentar muitos problemas até Helen aprender as palavras que ela ia soletrando, em língua de sinais, nas mãos da menina. Mas todo o esforço valeu à pena e Anne não apenas quebrou a barreira da incomunicabilidade com Helen, mas também a acompanhou em voos mais altos. Helen foi para a escola e para a faculdade, sendo a primeira pessoa com deficiências múltiplas a ter um diploma universitário. Ela se formou bacharela em Artes aos 24 anos, tendo sua educação financiada por um magnata do petróleo que admirava sua força de vontade.
Sua própria carreira nas artes já havia começado dois anos antes, quando Helen publicou sua autobiografia. Depois de formada, ela, Anne e o marido de Anne se tornaram grandes companheiros. A esta altura Helen era capaz de “escutar” música captando as vibrações das ondas sonoras em uma superfície e também havia aprendido a falar, tornando-se palestrante. Para completar, ela era capaz de entender o que os outros falavam colocando a mão nos maxilares de seus interlocutores, método que hoje é conhecido como Tadoma.
As ideologias de Helen Keller não poderiam ser mais avançadas para a época: defensora do sufrágio feminino e do controle de natalidade, opositora da entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial e membro do Partido Comunista. Começou a defender os direitos dos trabalhadores ao conhecer as condições abusivas de trabalho que levavam à cegueira nas fábricas e em prostíbulos, sendo neste último a causa principal a sífilis. Ao se declarar comunista, presenciou a ira de um jornalista que, anos antes, havia escrito vários elogios sobre ela. Com a alegação, ele voltou a escrever sobre Helen, desta vez menosprezando-a devido a suas deficiências.     
Além de escrever e publicar 12 livros e vários artigos, Helen fez algo que poucos sabem: introduziu na América a raça de cachorro Akita, pois adotou dois deles em uma viagem ao Japão na década de 1930. Além dos cães, seus grandes companheiros na vida adulta foram os empregados de sua casa. Após a morte de Anne Sullivan, em 1936, Helen e sua empregada viajaram o mundo em busca de investimentos para projetos que beneficiassem os deficientes visuais. Helen faleceu aos 88 anos, depois de uma série de derrames.
Uma história tão impressionante não passaria sem chamar a atenção do cinema. Em 1919, cenas de seu dia-a-dia foram usadas no documentário romantizado “Deliverance”. Na ocasião Helen se tornou amiga de vários atores de Hollywood, notadamente Charles Chaplin. A partir da biografia de Helen surgiu The Miracle Worker, um ciclo de histórias sobre a relação dela com Anne Sullivan que foram adaptadas para a TV, a Broadway e finalmente para o cinema em 1962, rendendo Oscars para as atrizes que interpretaram Helen e Anne, respectivamente Patty Duke e Anne Bancroft. Foram feitos também documentários e até um filme em Bollywood sobre ela. Além disso, ruas, hospitais, institutos e estátuas foram criados para homenageá-la e manter viva a memória dessa mulher surpreendente.

“Às vezes eu penso sobre minhas limitações, e elas nunca me deixam triste. Talvez seja apenas uma pequena vontade de vez em quando, mas é vaga, como a brisa entre as flores.”
Helen Keller (1880-1968)            

15 de set. de 2012

Perfis de Mulher: Anita Garibaldi


Símbolo de coragem, força e companheirismo, a brasileira Anita Garibaldi se aventurou ao lado do marido, o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, e foi de fundamental importância numa série de batalhas na Guerra dos Farrapos, num levante uruguaio contra um ditador argentino e na unificação italiana. Ela seguiu seu amado como a maioria das mulheres submissas da época faria, mas sua bravura fez dela uma mulher extraordinária.
Nascida Ana Maria de Jesus Rbeiro em 1821, era filha de humildes descendentes de portugueses. Embora a cidade de Lages tenha reivindicado o posto de cidade natal de Anita, hoje é quase certo que ela nasceu na cidade catarinense de Laguna. Órfã de pai muito jovem, viu-se obrigada a casar-se aos 14 anos com Manuel Duarte de Aguiar, que três anos mais tarde se alistou no exército e abandonou a mulher.
Em 1839 Garibaldi participou da tomada do porto de Laguna e, ao olhar por uma luneta de um navio, avistou Anita na costa e ficou deslumbrado com sua beleza. Na época, Giuseppe tinha 32 anos e Anita, 18. Ele desembarcou e, por uma coincidência do destino, foi convidado para tomar café justamente na casa onde Anita morava. Foi amor à primeira vista.
Logo ela decidiu abandonar a casa para seguir lutando com Garibaldi. E aqui começam as peripécias da corajosa moça, que incluem, logo de início, uma missão de transportar combustível numa balsa durante uma batalha naval. No ano seguinte Anita seria presa e enganaria o capitão inimigo dizendo que seu marido havia morrido em combate. Ele, comovido, deixou-a sair para procurar o corpo do marido, possibilitando sua fuga.
Em 1841 Giuseppe e Anita abandonaram a Guerra dos Farrapos, que já estava sendo combatida pelo governo central, e seguiram para o Uruguai, onde criaram cabeças de gado. Mas a vida pacata durou pouco, pois no ano seguinte eles se engajaram na luta contra o ditador argentino Juan Manuel de Rosas, que pretendia dominar a região. Foi neste mesmo ano que o casal regularizou sua situação, uma vez que no Uruguai não era possível assumir cargos públicos vivendo com a esposa numa situação irregular. Depois de tudo acertado, Garibaldi foi nomeado comandante da frota uruaguaia.
O casal teve quatro filhos, sendo que o primeiro, Menotti, nasceu ainda no Brasil. Os outros três nasceram em solo uruguaio: Rosita, Teresita e Ricciotti. Rosita faleceu aos dois anos de idade, devido a uma asfixia. Em 1848 Anita e as crianças foram mandadas para a cidade francesa de Nice, sob os cuidados da mãe de Garibaldi. Um ano depois ele se juntaria à família.
Outra vez a revolução chamou o casal, desta vez na Itália. Após um ataque a Roma, Anita segue Giuseppe; grávida do quinto filho, não aceita o conselho para ficar em um lugar seguro. O que aconteceu depois é um assunto controverso, mas a hipótese mais aceita é que uma febre alta, supostamente sintoma de malária, tenha tornado seu parto complicado. Anita faleceu aos 28 anos e seu filho também não resistiu. Seu corpo foi enterrado às pressas e desenterrado sete vezes antes de ser definitivamente sepultado.  
Monumento que marca o túmulo de Anita
Apesar de ter uma vida curta, Anita ainda é constantemente lembrada. Seu nome figura em diversas ruas, praças e avenidas. Em homenagem a ela foram batizados dois municípios de Santa Catarina: Anita Garibaldi e Anitápolis. Muitos monumentos foram erguidos para ela, inclusive em Roma, onde desde 1932 estão seus restos mortais. Vários filmes foram feitos sobre ela, sendo o primeiro de 1910 e havendo também uma versão de 1952 com a grande atriz italiana Anna Magnani. Em abril de 2012 ficou determinado que seu nome fosse escrito no livro dos Heróis da Pátria. Talvez ela seja mais conhecida pelo grande público como personagem da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, exibida em 2003 pela Rede Globo, em que foi interpretada por Giovanna Antonelli. Presença garantida nos livros de história, Anita foi uma grande brasileira que merece ter sua trajetória mais conhecida por seus compatriotas. 

Não tenha medo de viver, de correr atrás dos sonhos. Tenha medo de ficar parado."

Anita Garibaldi (1821-1849)