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11 de fev. de 2013

Perfis de Mulher: Carmen Miranda


Em época de carnaval, nos lembramos de grandes nomes do samba. Quem quer dar um toque mais vintage à folia com certeza dança ao som de Carmen Miranda, portuguesa de coração e alma brasileiros, que levou a música e os estereótipos do nosso país para o mundo e, apesar da vida curta, permanece um ícone não apenas na mente dos foliões, mas também de todos que apreciam bons filmes e boa música.
Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em 1909 numa pequena vila perto do município de Marco de Canaveses, em Portugal. Apelidada de Carmen pelo pai, um amante de ópera, era a segunda de seis filhos. Quando tinha um ano de idade, veio com a mãe para o Rio de Janeiro, onde o pai já estava havia alguns meses. Aos 14 anos parou de estudar e foi trabalhar em uma boutique, a fim de ajudar a pagar o tratamento de tuberculose da irmã mais velha. Aprendeu a costurar e abriu sua própria chapelaria, onde cantava enquanto trabalhava. Esse hábito lhe trouxe a oferta de gravar um disco.
O sucesso de seu disco levou Carmen a seu feito pioneiro inicial: ela foi a primeira pessoa a ter um contrato com uma rádio no Brasil, a Mayrink Veiga do Rio de Janeiro. Suas apresentações no rádio e ao vivo faziam sucesso e, em 1939, ela foi abordada por um agente da Broadway que queria levá-la para seu show. Ela aceitou, com a condição de que seus companheiros do Bando da Lua fossem junto.
O êxito na Broadway se repetiu nos filmes. Sua primeira experiência cinematográfica foi em 1933, no documentário “A voz do carnaval”, mas foi com os musicais que ela se consolidou. Se Getúlio Vargas apoiou sua ida para os Estados Unidos, em um fato inédito, durante a Segunda Guerra Mundial o presidente Roosevelt resolveu usá-la como parte da “política da boa vizinhança”, que consistia em manobras culturais para aproximar os EUA dos países latino-americanos. A ideia funcionou, e os filmes de Carmen fizeram imenso sucesso.
A admiração dos americanos e do povo brasileiro não era compartilhado pela elite do Brasil. Em 1940, ao fazer um evento beneficente, ela foi vaiada e criticada por levar uma imagem negativa do nosso país para o exterior. De fato, era estereotipada os filmes, tendo de falar com forte sotaque. Depois do incidente, gravou a música “Disseram que eu voltei americanizada” e ficou 14 anos sem voltar ao Brasil.
Nos EUA, continuava colhendo os frutos da popularidade: em 1941 foi a primeira e até hoje única latina a imortalizar suas mãos e pés no cimento do Grauman’s Chinese Theater. Em 1945, era a mulher mais bem paga de Hollywood. Infelizmente, este foi também seu último ano de glórias. Seus próximos filmes fracassaram, e sua imagem exótica já não mais agradava. Casou-se em 1947 com um produtor de cinema, David Albert Sebastian, e sofreu um aborto espontâneo no ano seguinte. O casamento também naufragou, embora ela não tenha tido tempo de se divorciar.
Se em uma época ela era adorada e parodiada, lançava moda e hits musicais, agora Carmen era consumida por álcool, tabaco, anfetaminas e barbitúricos. Ela só se recuperou de um colapso nervoso ao voltar para o Brasil, tendo desta vez uma recepção mais calorosa. De volta aos EUA, quis encerrar sua carreira mas, durante a gravação de um episódio do programa de TV “The Jimmy Durante Show”, ela teve um ataque cardíaco. Não se abalou e continuou seus número. Naquela noite, enquanto dormia, teve outro ataque cardíaco, este fatal. Aos 46 anos de idade, estava morta, e seu funeral no Rio de Janeiro foi acompanhado por meio milhão de pessoas.
Selo americano de 2011
Suas músicas ainda são consideradas marcas registradas do Brasil. Sua vida foi objeto de estudo, de livros e documentários. No entanto, o que mais permanece é sua imagem. No início da década de 1940, as lojas norte-americanas foram invadidas por roupas brilhantes, sapatos de plataforma, joias chamativas e chapéus de fruta. Até hoje joias em formato de frutas são confeccionadas inspiradas nela e todo carnaval podemos encontrar um folião fantasiado de Carmen.     

“Vou empregar todos os meus esforços para que a música popular do Brasil conquiste a América do Norte, o que seria um caminho para a sua consagração em todo o mundo.”

Carmen Miranda (1909 – 1955)

8 de dez. de 2012

Perfis de Mulher: Princesa Isabel


Recentemente, a princesa Isabel foi uma das finalistas do concurso exibido na televisão “Omaior brasileiro de todos os tempos”. A razão de tamanha admiração por esta figura real, tão distante de nós, é o fato de ela ser considerada a redentora dos escravos, tendo abolido a escravidão em 13 de maio de 1888. No entanto, apesar desse feito importante, ela merece destaque por uma série de fatos, entre eles o de ter sido a primeira mulher a governar o Brasil.
Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu em 29 de julho de 1846, a segunda filha do imperador Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina. Com a morte de seu irmão mais velho, ela foi proclamada oficialmente a herdeira do trono aos quatro anos de idade. Sua infância foi marcada por uma educação rígida, sendo que ela e a irmã Leopoldina não podiam frequentar festas ou espetáculos de teatro.
Quando Isabel completou 18 anos, seu casamento foi arranjado. Numa situação incomum para a época, ela e a irmã puderam escolher seus futuros maridos e acabou que elas ficaram com o pretendente uma da outra, sem que houvesse desentendimentos. Pouco mais de um mês após a chegada do noivo, Luís Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans, o conde d’Eu, ao Rio de Janeiro, foi realizado o casamento. Com a lua-de-mel veio a mudança na vida da princesa: ela conheceu vários países da Europa e passou a participar de recepções e bailes.
De volta ao Brasil, o conde d’Eu insistiu junto a D. Pedro para ir lutar na Guerra do Paraguai, o que Isabel reprovou. Entretanto, em 1869 ele foi para o campo de batalha, voltando vitorioso menos de um ano depois. No ano seguinte Isabel assumiu pela primeira vez a regência, devido a uma viagem de seu pai. Durante esse seu primeiro governo foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que libertava todos os filhos de escravas nascidos a partir daquela data. Anos antes, no dia de seu casamento, Isabel já havia alforriado os escravos que trabalharam para ela.    
A cada nova regência, Isabel se mostrava mais madura para governar e tinha novas ideias, a maioria trazidas de suas viagens para a Europa, sobre como modernizar o país. Apesar de alguns avanços, o ideal republicano ganhava cada vez mais adeptos. Cresciam também as campanhas abolicionistas e Isabel pressionava o Ministério conservador, levando o ministro a demitir-se. A nova manobra da regente foi propor a Lei Áurea, aprovada sem problemas na câmara e no senado. Seu feito foi comemorado em todo o país, no entanto, o Barão de Cotegipe, o ministro demitido, fez essa profecia a Isabel: “ganhou a partida, mas perdeu o trono!”
A abolição fez o Império perder o apoio dos fazendeiros. Antes disso, já havia perdido importantes grupos, como os militares e os religiosos. A proclamação da república, assim como a própria abolição, era questão de tempo. Em 15 de novembro de 1889 ela foi proclamada e a família real foi para o exílio na Europa. Dom Pedro II, Isabel, o conde d’Eu, seus três filhos, todos nascidos depois dos 30 anos da princesa, pela última vez viram o Brasil. Isabel, que era tão cara ao nosso país, não pode sequer voltar após o fim do banimento da família real. Em 1921, ela faleceu em Paris, ainda com as doces lembranças do Brasil e a certeza de que havia feito a coisa certa.  

10 de nov. de 2012

Perfis de Mulher: Clara Nunes


A voz do Brasil? Sem dúvida, a voz que melhor cantou as coisas do Brasil: o samba, o mar, a religiosidade, o romantismo e a alegria. Uma exuberância sem igual, vestida como uma praticante da umbanda, sem a produção exagerada de suas contemporâneas, Clara Nunes conquistou o mundo em menos de 40 anos de uma existência intensa.
Nascida Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, num distrito da cidade de Paraopeba, em Minas Gerais, era a caçula de sete filhos. Tendo ficado órfã muito pequena, ficou sob a tutela de dois irmãos, mas teve de se mudar para a casa de outra irmã, em Belo Horizonte, quando seu irmão matou um namoradinho dela. Tragédias à parte, já na infância Clara mostrava ter talento, pois ganhou um concurso de canto aos dez anos, em 1952, e se apresentava sempre no coral da Igreja.
Em Belo Horizonte, trabalhando como tecelã de dia e estudando à noite, Cara foi descoberta por um violinista que, empolgado, levou-a a vários programas de rádio. Seria aos 18 que ela teria o talento reconhecido ao vencer a etapa mineira de um concurso de rádio, ficando com o terceiro lugar na etapa nacional. Dessa vez ela deixou seu trabalho como tecelã para se apresentar na Rádio Inconfidência, sendo considerada por três anos consecutivos a melhor cantora de Minas Gerais. Já assinava o sobrenome Nunes, da família materna. Apareceu no programa de Hebe Camargo antes de ganhar seu próprio programa em uma TV local, em que recebia grandes nomes da música brasileira.
Aos 23 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Sem preconceitos, apresentou-se em bares, casas noturnas e escolas de samba do subúrbio. No mesmo ano ela assinou contrato com a gravadora Odeon e lançou seu primeiro LP, “A Voz Adorável de Clara Nunes”, um fracasso de vendas devido à insistência da gravadora para que o repertório fosse de músicas românticas, como boleros. Três anos depois, a consagração: seu segundo LP, além de ser um sucesso, foi sua porta de entrada para o mundo do samba.
Em 1970 Clara se tornou uma artista internacional ao se apresentar em Angola. Na capa de seu novo LP, o quarto da carreira, ela apareceu com roupas relacionadas às vestimentas afro-brasilerias e passou a adotar esse estilo. Nos anos seguintes, com a venda de LPs aumentando a cada novo lançamento, a cantora foi convidada a se apresentar na televisão de Portugal e também na Suécia e França.      
Seu disco “Alvorecer” vendeu mais de 300 mil cópias, quebrando o tabu de que mulheres não vendiam LPs no Brasil. No mesmo ano, 1974, Clara participou da peça “Brasileiro, Profissão Esperança”, sobre a cantora Dolores Duran. Nos anos seguintes, gravou sua primeira composição própria, “À flor da pele” e participou do lendário show do Riocentro, espetáculo em prol da anistia durante o qual um atentado foi planejado, mas não ocorreu como o esperado. Ela também voltou a Angola e se apresentou na Alemanha e na TV japonesa.  
Clara casou-se com o poeta, compositor e produtor Paulo César Pinheiro em 1976 e, após três abortos espontâneos, teve de se submeter à retirada do útero. Com a negação do sonho de ser mãe, ela focou-se cada vez mais na carreira, obtendo sucesso até o último dia. Em 1983 ela se submeteu a uma cirurgia para retirar varizes que a incomodavam. Um componente do anestésico causou-lhe um choque anafilático que provocou a dilatação de seus vasos sanguíneos, resultando em um edema. Após o problema ser controlado, a cantora permaneceu em coma por 28 dias durante os quais as mais estapafúrdias teorias sobre a causa do coma surgiram entre seus fãs e a imprensa. Clara, temerosa de tomar uma anestesia peridural devido ao risco de ficar paraplégica caso tivesse uma reação, insistiu por uma anestesia geral. Em 2 de abril de 1983, Clara faleceu, dando início a um grande tumulto e comoção durante seu velório, ocorrido na quadra de sua escola de samba do coração, a Portela.     
Mesmo depois da morte, vários discos foram lançados com gravações da cantora, trazendo-lhes novos fãs. Outros álbuns surgiram em sua homenagem, incluindo “Clara Nunes com vida”, em que outros cantores gravaram duetos póstumos com ela. Sua voz também se fez ouvir em diversas coletâneas de música brasileira lançadas em outros países. Sua história virou musical e livro.
O distrito de Cedro, onde Clara nasceu, emancipou-se e adotou o nome de Caetanópolis. Graças ao esforço da primogênita da família, hoje essa cidade conta com uma creche, um acervo, uma casa da cultura, um memorial e um festival em homenagem a ela, que perpetuam o legado desta inesquecível brasileira.   

6 de out. de 2012

Perfis de Mulher: Clarice Lispector


Uma das autoras brasilerias com maior número de citações circulando pela Internet, Clarice Lispector é também uma das mulheres brasileiras mais respeitadas no exterior.
Nascida num vilarejo da Ucrânia em 1920, Clarice chegou ao Brasil ainda criança. Durante a guerra civil que se seguiu após a Revolução Russa de 1917, várias famílias judias foram perseguidas, e a de Calrice era uma delas. Já em terras brasileiras a maioria dos membros aportuguesou os nomes (o nome de batismo de Clarice era Chaya) e se instalou em Maceió, mudando para Recife três anos depois. Na capital pernambucana a mãe de Clarice veio a falecer quando ela tinha apenas nove anos, deixando na filha um forte sentimento de culpa e impotência frente à doença da mãe, sífilis, supostamente contraída após um estupro durante a guerra.
Aos 15 anos ela veio com a família para o Rio de Janeiro e, aos 17, entrou na faculdade de Direito. O curso não atingiu suas expectativas e Clarice passou a escrever para distrair-se. Em 1940, no mesmo ano da morte do pai após complicações em uma cirurgia simples, ela teve sua primeira história publicada em uma revista. Ao ver-se órfã, passou a trabalhar para sustentar-se, primeiro na Agência Nacional de imprensa, depois no jornal A Noite.
Em 1943, já com cidadania brasileira e casada com um colega da faculdade, Clarice publicou seu primeiro livro, sucesso imediato de crítica: “Perto do coração selvagem”. Pela primeira vez no Brasil um romance era apresentado através do fluxo de consciência do protagonista, deixando de lado algumas convenções na escrita. No ano seguinte à publicação, Clarice e o marido, Maury Gurgel Valente, foram morar na Europa, onde ela inclusive trabalhou como enfermeira durante a Segunda Guerra Mundial.
Já em tempos mais calmos, Clarice escreveu “A Cidade Sitiada” na Suíça, mesmo país em que nasceu seu filho Pedro, que mais tarde seria diagnosticado esquizofrênico. Os tempos no país dos Alpes não foram só de alegria, uma vez que a escritora expressou seu tédio e tristeza da vida naquela época. Além disso, “A Cidade Sitiada” não foi tão bem recebida quanto o primeiro livro ou mesmo o segundo, “O Lustre”, publicado três anos antes.
Depois de mais algumas viagens e um aborto sofrido durante uma visita a Londres, Clarice e a família ficaram no Rio por um ano, quando ela publicou uma série de contos que serviria de base para seu livro “Laços de Família” e também escreveu para a revista Comício sob o pseudônimo Teresa Quadros. Depois ela ficou sete anos nos Estados Unidos, onde nasceu seu segundo filho, Paulo. Neste período não publicou nenhum livro.
Os contatos de Clarice ao longo da vida foram importantes para sua carreira e seu desenvolvimento como escritora. Do poeta e novelista Lúcio Cardoso, homossexual por quem ela se apaixonou na juventude, resultou uma amizade duradoura. Enquanto esteve nos Estados Unidos, conviveu com o também famoso escritor Érico Veríssimo e a esposa do embaixador brasilerio, filha do ex-presidente Getúlio Vargas.
Suas obras mais celebradas seriam escritas com seu retorno definitivo ao Rio, deixando o marido nos EUA. As coletâneas de contos “Laços de Família” e “Legião Estrangeira” foram lançadas ainda na década de 1960. Em 1968 Clarice participou de uma manifestação contra o enrijecimento da repressão instituída pela ditadura militar.
As obras-primas viriam nos anos finais: “Água Viva”, romance filosófico que, segundo amigos, foi o que Clarice ficou mais insegura quanto à publicação, e “A Hora da Estrela”, com sua problemática social. Reza a lenda que o cantor Cazuza gostava tanto de “Água Viva” que leu o livro 111 vezes. Em 1973 Clarice tinha sido demitida do Jornal do Brasil, juntamente com todos os judeus que lá trabalhavam. Ela escrevia colunas para o público feminino do jornal e, vendo-se desempregada, passou a fazer traduções de livros. Era fluente em inglês francês e iídiche. Além disso, também escreveu cinco livros infantis, sendo dois de publicação póstuma.
Em 1966, ela sofreu um grave acidente ao tomar pílulas para dormir e cair no sono com um cigarro aceso que incendiou sua cama. Sua mão direita quase foi amputada e a escritora passou dois meses internada. Voltaria ao hospital em 1977, pouco depois da publicação de “A Hora da Estrela”. Ela tinha um câncer inoperável no ovário e mesmo assim continuou ditando suas ideias para uma amiga. Faleceu na véspera de seu aniversário de 57 anos.
Na juventude, foi considerada uma mulher tão bela quanto Marlene Dietrich e que escrevia tão bem quanto Virginia Woolf. Celebrada no mundo todo pela inovação de seus escritos, Clarice nasceu na Ucrânia, mas sempre se considerou brasileira. Assunto de tantas teses e debates, além de livros e biografias estrangeiras, Clarice pode ganhar sua própria cinebiografia e ser interpretada por Meryl Streep. 

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector (1920-1977)

5 de set. de 2012

Qual é o segredo da Bruxa?


Certo dia - no mesmo em que postei o Toda Mulher Tem Um Pouco de Bruxa - passei em frente a uma livraria que costumo cruzar; Lá estava aquele livro de capa marrom, com um desenho quadrado cortado por duas diagonais, de um autor que desconhecia; O título? Era O Livro da Bruxa. Parei e encarei aquela obra por um bom tempo antes de entrar e comprá-la. Olhei para a vendedora e disse: "O livro chamou-me!" Foi exatamente isto. Paguei os R$ 9,90 e saí. Mal sabia eu que aquelas poucas páginas trariam tanto ao meu ser.

Sabe qual é o maior segredo da magia? A perspectiva. Quando esbarramos com um mágico, um ilusionista, uma bruxa, ficamos encantados com o que podem fazer diante de nossos olhos. Sabemos que há um truque, mas, queremos nos iludir. Contudo, se mudarmos o foco, vamos perceber aqueles detalhes obscuros da mesma situação. Talvez até notaremos alguma nuance de cor esquecida ou um som acalentador. A Bruxa deste livro é expert nisto e está pronta para compartilhar com o pupilo escolhido, no caso, o autor do livro.

Uma sinopse destas poderia anunciar algo complexo e cheio de clichês. Não é assim, em que pese do ponto de vista literário não anunciaria o seu conteúdo como obrigatório. Todo escrito em primeira pessoa, o texto flui com uma naturalidade direta, tornando muito fácil a leitura. É o típico livro pessoal, para alguns soará bom, para outros não significará nada. Sou do primeiro grupo, daqueles que querem perceber nas coisas mais corriqueiras a beleza de um olhar poético.

Comentei sobre ele neste meu vídeo para o vlog do Antes que Ordinárias:


Se eu pudesse aconselhar os futuros leitores deste livro, faria assim:

Ainda que por um instante, respire percebendo o ar em si. 
Idolatre a natureza diária. 
E redescubra as árvores, antes esquecidas, no caminho ao trabalho. 
Torne o cotidiano cinza, em arte. 
Enfeite-se. 
Ouse.

Já foi dito por aí: "A vida é muito pra ser insignificante." Não concordam?


7 de ago. de 2012

Katita e Suas Tiras sem Preconceito

Quadrinhos é uma das artes que mais consegue explorar certos aspectos sociais de forma mais direta e mais livre. Daí, fica fácil perceber que trabalhar a sexualidade sem preconceitos estaria na lista. Os artistas brasileiros do estilo também enveredaram nesta senda com muita sagacidade, dentre eles está o trabalho de Anita Costa Prado e Ronaldo Mendes; Os dois criaram a Katita, uma garota lésbica bem resolvida. Sobre a visão dos artistas editora Marca de Fantasia traz a seguinte informação: 
Anita Costa Prado há algum tempo é militante das causas homossexuais, em particular do feminino, contra os preconceitos de toda espécie, e tem se expressado como escritora, poeta, incentivadora cultural. Dentre suas várias atividades, criou uma personagem, a Katita, e tem batalhado pela sua difusão nas mais variadas formas, desde ilustrações, camisetas, até as tiras de quadrinhos. Para a realização das tiras, Anita buscou parceria para os desenhos, que já foram feitos por outras pessoas, e atualmente encontrou em Ronaldo Mendes o artista ideal, com um traço bem definido e agradável e com grande capacidade de produção. Nas tiras que escreve, Anita assume que privilegia o tema, ou seja, suas tiras são o veículo para sua militância. Esta opção, que é consciente, tem seu pró e seu contra. Ao tratar diretamente dos vários aspectos relacionados ao tema central, Anita fala com mais eficácia aos leitores que se interessam pelo assunto. E não apresenta maior atrativo para os leitores que não têm interesse especial pelo tema. Com isso restringe seu universo de leitores, embora dialogue melhor com este público. Uma vez que o público a que se dirige está bem definido, Anita se permite ser direta, explícita, às vezes doutrinadora, às vezes panfletária, pois é isto que o público espera.
O sucesso online do primeiro e-book "Katita: Tiras sem Preconceito", logo fez com que surgissem outros: "Katita: O Preconceito é um Dragão", "Katita: Maré-cheia de Sereia" e "Katita: Humor & Malícia". Curiosos com a persona? Seguem algumas de suas tiras:




2 de ago. de 2012

Mundo da Lua, onde tudo pode acontecer…

“Alô! Alô! Planeta Terra chamando, planeta Terra chamando! Alô! Esta é mais uma edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do Mundo da Lua, onde tudo pode acontecer…"
Se tem algo que acredito que deva ser estimulado durante toda a vida é a tal da "imaginação infantil". Coloco entre aspas vez que penso ser um fator além das idades, algo inerente ao espírito. A imaginação que esquece dos limites é responsável pelas maiores invenções e reviravoltas sociais, esta espécie de "sonhar" é característica daqueles insanos que nunca deixam de cogitar as impossibilidades. A exemplo de um certo garotinho que  figurou na telinha da TV Cultura lá no início dos anos 90; Já sabe quem é? Vai aí mais uma dica: "Ah, né?!"

O pequeno voluntarioso Lucas Silva e Silva - interpretado por Luciano Amaral, sim, aquele do Castelo Rá-Tim-Bum - era a personagem principal de um dos programas brazucas mais interessantes: O Mundo da Lua. Com o pretexto de um gravador que Lucas recebeu de seu avô no aniversário de 10 anos, inicia-se uma jornada entre a infância e a adolescência, seus conflitos e as escapatórias imaginativas do menino quando os problemas reais o afetavam.

De cara pode soar perigosa a alternativa dele, contudo, é neste espaço imaginário - o mundo da lua - que encontra as respostas, enxergando tudo sob uma nova perspectiva. Sem pretensões, acabava fazendo um verdadeiro exercício de autoconhecimento. O grande mérito disto resta, justamente, nas mãos do criador do programa e roteirista da maior parte dos episódios, Flávio de Souza.

Imagem retirada daqui.
A equipe de sucesso não parava por aí, afinal, o elenco de apoio era tão fantástico quanto o protagonista; A começar por seu avô Orlando, que nas mãos de Gianfrancesco Guarnieri virou um simpático e engraçado ser. Também se tinha a hilária empregada - Ana D'Lira - e seus amores por um apresentador de rádio. Há que se falar dos pais, típicos e amorosos, Rogério (Antônio Fagundes) e Carolina (Mira Haar); Para fechar, uma tradicional adolescente e seus rompantes, a qual servia de contrassenso para Lucas, sua irmã Juliana (Mayana Blum).

No fim, nada mais era do que uma família como qualquer outra, com seus problemas e suas percepções do crescimento. Daí a graça da imaginação como elemento fabuloso para ensinar e alargar os olhares infantis. O encanto das desventuras descritas naqueles diários de bordo era tamanho que, como guria que cresceu aos embalos culturais, fica difícil de esquecer aquela abertura anunciando que tudo poderia acontecer.

Caso você não conheça, ou mesmo queira relembrar, deixo aqui o primeiro episódio - de 52 - para conferir. E boa viagem ao universo lunar:

"I believe in the imagination. What I cannot see is infinitely more important than what I can see". 

19 de jul. de 2012

Cine Trash, Zé do Caixão e Suas Pragas

Apaixonado pelo terror como ele só, José Mojica Marins, que criou a persona do Zé do Caixão - confiram a sua biografia fictícia -, transitou pelas mais variadas formas de expressão do gênero, desde cinema, literatura, programas de Rádio e, inclusive, programas de TV. Sua trajetória começou nos anos 50 em outros estilos de filmes, sendo somente na década de 60 que surgiu a personagem pelo qual é famoso.  Durante aquele período alcançou um bom sucesso com suas produções trash de horror. Com um estilo caricato, nas sequências das décadas, passou um bom tempo Zé do Caixão foi sinônimo até de graça; Contudo, com o seu Encarnação do Demônio, ganhou o status de cult - por sinal muito merecido - e presenciou um revival que poucos artistas tiveram a sorte. 

Eu só fui ter ciência de quem era o tal do Zé do Caixão quando passei a assistir ao Cine Trash, o qual passou na BAND durante a década de 90. Como o próprio nome da atração diz, o objetivo era disponibilizar verdadeiras pérolas do horror e seus absurdos para o público das tardes, já que passava as 15h15min. Fazendo o estilo de apresentação antigo - vide O Show da Vampira - trazia, além da emblemática figura do Zé, películas como Re-animator, Ghoules, Psycho Cop - Ninguém Está em Segurança, A Noite dos Mortos Vivos, The Evil Dead, e Fome Animal. Para saber a lista completa apresentada clique AQUI. O programa durou alguns meses até que a faixa etária dele fosse alterada e a Band obrigada a cancelá-lo. Uma pena, já que os índices de audiência eram ótimos.

O sucesso da atração foi tamanho que até um CD - super legal por sinal - inspirado na mesma foi lançado na época. Confira as músicas:

1. Alice Cooper - TRASH
2. White Zombie - SUPER CHARGER HEAVEN
3. Kreator - PREVAIL
4. Slayer - RAINING BLOOD
5. Black Sabbath - SABBATH BLOODY SABBATH
6. Accept - PREDATOR
7. Criminal - SELF DESTRUCTION
8. Nine Inch Nails - WISH
9. Psichotica - STARFUCKER LOVER
10. Deep Purple - ANYA
11. Gangrena Gasosa - SARAVA METAL
12. Full Range - LIFE WATERFUL MAN
13. Nightmare Team - TRASH THEME



Uma das coisas mais legais no programa eram as famosas Pragas do Zé do Caixão, até hoje relembradas. A tal da brincadeira de tão certo que havia até uma promoção que selecionava as melhores pragas dos telespectadores para serem lidas no ar.


Encontrei algumas delas na internet. Aviso que estas não fizeram parte do Cine Trash - uma é do canal dele no youtube, outras duas do Estranho Mundo de Zé do Caixão, e a última para a divulgação de seu filme -, mas, estão valendo. 

''O medo é o pior dos flagelos que a mente do homem aninha em seu recôndito. Ele transforma seres racionais em simples marionetes, movidos pelos cordões negros do terror.''

12 de jul. de 2012

A Era dos Festivais: Quando a Música era feita de Voz

Imagem Retirada do Era dos Festivais
Eu sei, uma coluna de televisão falando sobre música? Entretanto, este "tubo de raios catódicos" - já que eram assim na época - teve importância vital para a proliferação da música popular brasileira como hoje a conhecemos. Foi graças a iniciativa das emissoras TV Excelsior, TV Record, TV Rio e Rede Globo que a arte musical fixou-se ao público como forma de manifestação inteligente e nomes como Elis Regina, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, entre outros tantos consolidaram-se.
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A Era dos Festivais teve início em meados de 1960 com o I Festival de Música Popular Brasileira, realizado em São Paulo e Transmitido pela TV Excelsior. Daí pra frente vários outros festivais foram surgindo, com formatos similares e transmitidos nas telinhas - dentre eles podemos citar: Festival Nacional de Música Popular Brasileira, Bienal do Samba, Festival Internacional da Canção, MPB 80, Festival dos Festivais, entre outros. A referida era findou-se em 1985, com o Festival dos Festivais apresentado pela Rede Globo.

Diversos movimentos ganharam espaço através de tais, a exemplo da Jovem Guarda e do Tropicalismo. Contudo foi o Festival de 1968 que mais repercutiu e gerou controvérsias, em que pese não tenha trazido grandes inovações. Como era costume, o público participava ativamente durante as músicas; Ou seja, aplaudiam se gostassem, vaiavam caso não. Caetano entrou para cantar É Proibido Proibir e foi vaiado do início ao fim de sua apresentação. Veloso, que por óbvio se alterou com a reação do público, encerrou sua participação com um discurso e a frase: "Se vocês forem para a política como são para a estética nós estamos feitos". Mais detalhes deste festival confira AQUI.

Vale ressaltar que um dos pontos mais importantes para a expensão musical lá foi a presença da Ditadura Militar. Com a necessidade de expressar-se e a limitação vivida, uma das saídas que restou jazia na composição de canções ambíguas e politizadas, onde a mensagem chegasse ao público passando pela censura. Veja-se o exemplo de Cálice, composta por Chico Buarque e Gilberto Gil. Havia evidente preocupação com a qualidade musical, mais do que com o seu sucesso. Havia uma magia tamanha arreigada em versos prontos para serem consumidos.

Difícil não fazer comparações entre o ontem e o hoje da esfera musical nacional. Com o fim dos festivais e novas vivências sociais, os Anos 90 aqui no Brasil surgiram com seu "Pega pra Capá" dançante do Axé Music; Já nos anos 2000 o duplo sentido musical ganhou as vezes das paradas e hoje ruídos melódicos de Tchu e Tcha são os donos do Top Hits. Longe de mim afirmar que a música brasileira não tem qualidade hoje, até porque vários artistas talentosos surgiram de lá para cá, a questão aqui se fixa no gosto popular; Aí sim, não dá para negar que os festivais foram a Era de Voz, num sentido amplo da palavra.

  • Vamos a alguns vídeos:
Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito.

5 de jul. de 2012

TV Cult: As Marias do SBT

Pois é, a Globo lançou uma novela com três Marias - Maria da Penha, Maria do Rosário e Maria Aparecida. As três belas moças são empregadas domésticas e, graças a um vídeo que vira Hit na internet, transformam-se em famosas. Ou seja, são mulheres batalhadoras que por um golpe do destino passam a viver um conto de fadas. Pensei comigo, onde é que eu já vi um plot similar? Foi quando me caiu a ficha e voltei para meado dos anos 90, onde a primeira Maria Mexicana foi trazida ao Brasil pela SBT. Se a Rede Globo tem hoje três delas em uma novela, o canal do Silvio apresentou anos antes três pérolas da teledramaturgia figuradas por Marias sofredoras, todas interpretadas pela linda da Thalía.

Está certo que a abordagem global é repleta de purpurina, breguice proposital e humor, enquanto as da Televisa são melodramas absurdos e kitsch. Contudo, impossível negar as semelhanças entre tais. Quer ver outro ponto de convergência? Todas as protagonistas cantam, senão durante o decorrer da trama, na abertura da novela. É aquela máxima, "na televisão nada se cria, tudo se copia". O crédito fica com a melhor versão de um original esquecido pelo tempo.

Este bafafá todo que fiz ali em cima nada mais é do que a desculpa perfeita para falar, aqui no TV Cult, sobre algumas novelas adoradas - sabe-se lá o porquê - por boa parte da população brazuca - nem vou falar do sucesso no México: A Trilogia das Marias - Maria Mercedes, Marimar e Maria do Bairro. Confesso que, durante anos, este foi um dos meus prazeres culposos mais adorados. Não sei se hoje teria paciência para tanta licença melodramática... Quem sabe?

Vou falar um pouquinho de cada trama, escolhi a ordem cronológica de exibições:

Imagem retirada DAQUIConfira a Abertura da Novela abaixo e sinopse na sequência: 

Apresentada pela SBT em 1996, contava a história de uma menina abandonada, juntamente com seus irmãos, pela mãe. Além disto, seu pai era alcoólatra, o que forçou que ela e seus outros irmãos fossem trabalhar nas ruas. Certo dia ela esbarra em Santiago, um rico homem que detesta Malvina (sua irmã) e está muito doente. Então, como vingança pessoal contra tal convence Maria Mercedes a se casar com ele. Com a morte de Santiago, Maria passa a ser a provedora da família, o que enfurece Malvina. Esta bola um plano de casar seu filho Jorge Luís com a iludida da Maria para conseguir o dinheiro de volta. Aí a trama fica mais óbvia ainda, no início ele detesta ela, depois vai se afeiçoando e assim por diante.
Curiosidades: Esta novela é uma refilmagem de Rina, que por sua vez é baseada em uma radio novela chamada Enamorada. Li que agora em julho a SBT voltará a exibir Maria Mercedes. 

Imagem retirada DAQUIConfira a Abertura da Novela abaixo e sinopse na sequência: 

A trama aqui é mais vingativa - toda vez que vejo a Nina de Avenida Brasil lembro da Marimar, as duas meninas que juraram vendetta aos que lhe causaram mal no passado - trazendo a história da humilde pescadora Marimar, que vive com seus avós e acaba se envolvendo com o jovem rico Sérgio. Este ilude a moça, já que o único interesse que possuía na pobre era irritar sua madrasta, convencendo ela a aceitá-lo em casamento. Após casada Marimar enfrente as maiores humilhações sob aquele teto: Angélia - a madrasta - trata ela como empregada, faz passar por situações constrangedoras e, inclusive, manda por fogo na choupana onde os avós dela moravam, matando-os; Sérgio não deixa por menos, vivendo como solteiro e chegando a bater nela. O golpe final vem quando ela é acusada de furto e acaba presa. Marimar depois que sai da prisão encontra Gustavo que a ajuda a se tornar uma mulher poderosa na sociedade e assume a identidade de Bella Aldama, neste ponto inicia suas investidas para vingar-se. Ufa! 
Curiosidade: Trata-se de uma adaptação da novela La Indomable (1974) de Inés Rodena.

Imagem retirada DAQUI; Confira a Abertura da Novela abaixo e sinopse na sequência: 
A última da trilogia, conta a história de uma garota vivaz que mora com sua madrinha em um bairro muito pobre. Ela é catadora de lixo - e a Avenida Brasil achando-se pioneira por falar de lixão... tsc...tsc...tsc. Repentinamente a madrinha da moça falece e Padre Honório arranja moradia para moça na casa do milionário Fernando de la Vega. Aos poucos ela vai conquistando todos da casa, inclusive Luis Fernando - o lindo e "putão" do Fernando Colunga -, o qual acaba se apaixonando pela Maria do Bairro. A novela passa-se em duas fases, antes e depois do casamento de Maria. Sendo que na segunda parte o melodrama vem pesado, com alcoolismo, ciúmes, separação, desaparecimento, ressurgimento, perda de memória, incêndio... Tudo de mais clichê e absurdo! 
Curiosidades: María la del Barrio foi exibida em mais de 70 países, sendo uma das telenovelas que alcançou maior internacionalização e um dos programas mais vistos da história da televisão. Está sendo reapresentada atualmente no México pela sua emissora original desde 11 de junho e, no Brasil, desde 6 de fevereiro, pelo SBT.

Sobre a Thalía conferi uma matéria (Yahoo) que revela um pouco dos sofrimentos pessoais dela. Era tanta coisa junta que entendi o motivo da bela fazer tanto sucesso no papel de mocinha sofredora: Após a morte do pai dela passou um ano em mudez seletiva, devido ao choque; Pouco depois de seu casamento suas irmãs foram sequestradas e mantidas como refém por duas semanas; Tornado-se recentemente mãe, Thalía foi picada por um carrapato e quase morreu por estar com a Doença de Lyme em estágio tardio.

Fale o que se fale, estas novelas e seu estilo de folhetim-romance-de-segunda marcaram o cenário televiso dos anos 90 e o meu imaginário impressionável infanto-juvenil. É kitsch, é cult!

29 de jun. de 2012

Violência Doméstica: Sinais de um Relacionamento Abusivo

Imagem retirada do site Shards of China
Tem quem julgue o assunto polêmico, tem os que afirmem ser saturado; É aquela contradição popular: De um lado fala-se "numa mulher não se bate nem com uma flor", de outro pragueja-se "tem mulher que gosta de apanhar mesmo". Tanto se comentou - argumentos a favor e contra - com o advento da Lei Maria da Penha que o interesse principal acabou mitigado, já que ao invés de analisar-se a situação de um ponto de vista estatístico, a conversa tomou o rumo do sexismo. Verdade seja dita, a violência doméstica - a qual ocorre em sua grande maioria contra mulheres e crianças - é um tópico que está muito distante de ser resolvido.

Há algumas postagens atrás comentei sobre a força devastadora de uma paixão mal direcionada; Karla Homolka e Paul Bernardo fizeram de seu relacionamento um conjunto de abusos físicos contra ela e contra terceiros resultando na morte de 4 adolescentes. Poucos momentos visualiza-se a força que um envolvimento íntimo pode ter, especialmente se a dinâmica existente entre os envolvidos não for saudável. Surge aí a dominação e a dependência, combinação perigosamente letal. Algo que era para ser um complemento da vida transforma-se em medo, insegurança, ciúme, agressões... Um jogo intermitente de amor possessivo e ódio, restando marcas difíceis de cura.

Trabalho no ambiente jurídico há anos, passei por fórum, escritórios de advocacia e delegacia, nesta última tive contato com alguns casos de agressões no ambiente do lar, todas sofridas por mulheres e crianças. Obviamente que cada situação vinha com suas particularidades, contudo, os pontos em comum eram: Não se tratava do primeiro abuso e a confusão interna da vítima, por vezes se percebendo como culpada. Soava estranho, mas, parecia um vício. De fato, a dissimulação do agressor é tamanha que a vítima perde o senso crítico habitual.

Não só de agressões físicas é construída a violência doméstica, também de abusos verbais - imagem ilustrativa ao lado foi retirada do blog Introduction of Ethics Discussion Forums - , degradando a pessoa por palavras, e até abusos sócio-econômicos, que consiste na limitação dos gastos e proibição de interação social. Ou seja, há vezes que a agressão fica num plano mais psicológico que físico, contudo, não menos aniquiladora. Então, como forma de atentar, fiz uma pesquisa em alguns sites a fim de listar certos comportamentos de alerta nos relacionamentos. Os sites que usei foram: Dryca Lys, Recovery Man, Primeiros Sinais de Violência no Namoro e Debora's Weblog

Segue a lista com Sinais de um Relacionamento Abusivo:

  • Desrespeito;
  • Agressividade sem motivo;
  • Imposição de um relacionamento baseado no medo e domínio, com ameças físicas e verbais de ferir o companheiro ou a si mesmo;
  • Ciúme e possessividade em evidência, com excesso de ligações, emails, SMS, além de uma constante vigilância do parceiro em mídias sociais, companhias e telefonemas;
  • Controle exacerbado da vítima, a exemplo das roupas, chegando a impor limitações de convívio com amigos, familiares e conhecidos;
  • Faz questão de colocar a culpa no parceiro (vítima) por seu comportamento alterado e atitudes violentas;
  • Impõe - soando a ordem - comportamentos sexuais com os quais o outro não se sinta confortável;
  • Há um temor de agir como "você mesmo" perante o parceiro, fazendo com que se preocupe com a reação dele ao que faz e/ou diz;
  • Amigos e parentes alertam sobre o parceiro e seu comportamento inadequado;
  • Mentiras e torturas emocionais são frequentes - aos poucos o companheiro distancia-se da pessoa que se apresentou inicialmente, acumulando promessas incongruentes aos atos -, chegando a ridicularizar as atitudes da vítima provocando constrangimentos;
  • Dificuldade em terminar o relacionamento mesmo sentindo que é o certo.
Parece simples a identificação, mas, uma vez que a pessoa está envolvida com o agressor, a clareza turvar-se. Então, se você ou algum conhecido seu se encontra num relacionamento que possua estas características, procure ajuda.

O vídeo abaixo é sobre duas situações distintas de violência doméstica relatadas pelas vítimas. O documentário curta-metragem é do Reino Unido e possuí legendas.

Ainda como meio de ilustrar, acrescento o filme completo da Nova Zelândia chamado O Amor e A Fúria - cujo título em inglês é muito melhor Once Were Warriors. É uma película pesada na violência, tem classificação 18 anos, sem legendas, e não recomendo aos mais sensíveis. Existem outros Filmes sobre violência doméstica, basta clicar no link para conferir algumas dicas. Fique com a sinopse do Cineplayers:
Uma família descendente dos guerreiros Maori, com cinco filhos, vive em um bairro violento. O pai, Jake, é intenso e vive a maior parte de seu tempo em um bar brigando e bebendo. Em casa, sua mulher é alvo de sua violência, mas a paixão sexual que ela sente por ele mantém os dois unidos. Enquanto isso os filhos vivem e causam problemas diversos.


Honestamente desisti de saber.
Ou sentir.
Ou entender.
Não sei mais o que pensar.
Foi na condenação minha que armei o meu sentimento,
Perdi os sentidos pelo tapa,
E, através de beijos seus o recobrei.


25 de jun. de 2012

Buraco no Espelho - Bicho de 7 Cabeças





"o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada"

Arnaldo Antunes




Seu Wilson e seu filho Neto possuem um relacionamento difícil, com um vazio entre eles aumentando cada vez mais. Seu Wilson despreza o mundo de Neto e este não suporta a presença do pai. A situação entre os dois atinge seu limite e Neto é enviado para um manicômio, onde terá que suportar as agruras de um sistema que lentamente devora suas presas.

Esse filme é muito especial pra mim. Não somente por retratar a dificuldade de relacionamento entre pai e filho e sim a coragem em retratar o caos que é o "tratamento psiquiatrico nos manicômios". Em uma cena o Doutor Sintra(Psiquiatra Resp.) recebe um telefonema que informa o possível cancelamento da verba para o Hospital. Caso ele não consiga mais internos. Logo, ele cita que buscará mais pacientes debaixo de algum viaduto da cidade.   

O equilíbrio mental dos pacientes não é prioridade e miseráveis podem ser trancafiados no hospício, o repasse do governo para clínicas abarrotadas é que não deve ser perdido.

Parece mesmo que “Bicho de Sete Cabeças”, dirigido por Laís Bodanzky,com roteiro de Luiz Bolognesi baseado no livro autobiográfico de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos é um filme de valor social. Existem pessoas que acreditam que o filme foi um dos principais propulsores da implantação da Lei Paulo Delgado, que ainda assim teve sua cláusula essencial alterada, após 12 anos de sua elaboração( ou seja na realidade muito pouco mudou).

Eletroconvulsoterapia; medicamentos tranqüilizantes; injeções aplicadas grosseiramente; reclusão em locais exíguos, insalubres e fétidos ― procedimentos aplicados de modo desordenado, muito além dos 84 minutos muito bem filmados por Bodanzky. Neto (Rodrigo Santoro) é o típico louco “fabricado” pelos próprios métodos classificados como sanativos nos arredores da psiquiatria dos anos 1990 (Bodanzky quis alertar o espectador, situá-lo na atualidade), vista como uma inequívoca forma de política pelos mais analíticos.

O filme aborda questões sociais como os abusos sofridos pelos pacientes dos hospitais psiquiatricos cometidos pelos medicos e funcionários desses locais, a questão das drogas e a relação problemática entre pai e filho. Essas abordagens renderam críticas positivas sobre o filme e fizeram com que as pessoas repensassem antes de internar seus filhos em alguma instituição.

Carrano se refere às instituições como "chiqueiros psiquiátricos", e quando perguntado a ele se Bodanzki fizera uma adaptação fiel de seu texto, ele respondeu:
"Acho que o filme ficou na dosagem certa, embora não passe nem 10% do que nós pacientes psiquiátricos passamos dentro desses chiqueiros psiquiátricos, que ainda hoje são verdadeiras "casas de extermínio". Quando comparo essas instituições do terror com casas de extermínio, não é só pelo fato de 80% dos internos morrerem ou virarem moradores lá dentro, mas também pela prisão física e química às quais somos submetidos, ou seja, uma morte em vida que nos leva ao zumbinismo."
De acordo com o raciocínio do jornalista Luiz Carlos Maciel no jornal O Pasquim em janeiro de 1970, um ex-interno não é mais humano, como estabelece a moralidade vigente mais ou menos definitivamente. Com Neto não é diferente, apesar de sua repelência ter sido pouco abordada, mas pode ser ainda pior. Como louco fabricado, no domínio da doença adquirida e consequentemente punido pelo próprio psicológico, ele está impedido de adaptar-se à sociedade que voluntariamente se omite e acaba voltando ao pesadelo dos hospícios. É revoltante concluir que ele entrou normal e saiu perigosamente alterado. Foi “tratado” para ser um excluído.

Neto faz apelos constantes para sair do manicômio e são encarados como táticas de um "viciado" que pagaria qualquer preço para retornar ao convívio com as drogas, o que só faz com que se prolongue sua internação. Quando consegue sair, passa a conviver com o preconceito dos outros e tem dificuldades de readaptação que o levam a incorrer em novos erros e descaminhos, levando-o a nova internação.
Como escapar desse vai e vem?  O que nós podemos fazer?

Sensibilidade é uma das palavras essenciais nessa relação delicada. Compreensão e diálogo também fazem parte do caminho da recuperação. Neste caso a recuperação(ou inicio dela) seria a BOA relação entre pai e filho (lembrando que Neto não era um viciado convicto).


Este filme possui 2 vertentes ficção : drama familiar e documentário mostrando a dura e ainda presente realidade da situação manicomial.


Creio que o hospital psiquiátrico segue a seguinte porcentagem:  solitária, +camisa de força + eletrochoque + medicamentos = 90% do tratamento.  Extinção da exclusão + extinção do apagamento do sujeito + extinção do desprezo = 10%.


Tal porcentagem seria um 'legitimo' problema de saúde pública ou apenas minha doce utopia?

"Pai, as coisas são boas quando a gente esquece.
Mas, eu ainda não esqueci o que você fez comigo.
Lembra da frase que você disse:
Eu cheguei onde cheguei.
Quero ver onde você vai chegar?
Pois é Pai...cheguei aqui. Aqui é meu lugar.
Seu mundo aí é fora não é mais pra mim" 
Neto em sua carta ao Pai.
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