7 de nov de 2012

Monteiro Lobato - Vamos discutir a censura?


Tem certas coisas que são difíceis de engolir e uma dessas coisas,certamente é a patrulha excessiva do "politicamente correto",tudo tem limites,inclusive a perfeição. Acontece que essa marcação cerrada,para manter tudo na ordem,evitar injustiças,tornar tudo mais igualitário,acaba gerando um efeito contrário gerando mais desordem,mais injustiça,mais desigualdade.

Tudo que se tenta colocar numa fôrma perde a forma,perde a originalidade, o conteúdo,a essência! Imaginem só,estão querendo censurar as obras de Monteiro Lobato! Motivo: A presença constante de preconceito nas páginas dos livros que marcaram as nossas infâncias. A polêmica já está rolando há dois anos e está longe de chegar a um consenso.


Desde que alguém analisou cuidadosamente e encontrou cabelo em ovo,chifre em cabeça de burro,entre outras cosítas mais,um parecer foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Nacional de Educação e a finalidade deste era que a obra Caçadas de Pedrinho fosse redistribuído às escolas públicas com o acréscimo de notas explicativas sobre estereótipos raciais em certos trechos e foi rejeitado pelo ministro da Educação,Fernando Haddad. Isso foi em outubro de 2010.

A ideia principal seria  recolher as edições antigas com o formato original,impedindo o seu uso nas escolas e acaso,as obras do autor realmente tivessem que ser utilizadas nas escolas,deveriam vir com notas explicativas. E como o livro continua a ser utilizado sem as tais notas o mimimi prossegue. Dia destes estava assistindo à programação da TV Escola e havia um debate entre acadêmicos de diversas áreas e o tema era o preconceito,que de uma hora para outra resolveu adotar o nome artístico de bullying e mitar (neologismo derivado da palavra Mito)  pelos quatro cantos afora.


E embora os que estivessem na mesa redonda tivessem argumentos realmente sólidos para justificar a não-censura do autor,simplesmente eles não tinham chance de falar,pois uma antropóloga,estereótipo das figuras de antropólogas que se vê à exaustão na tv,toda trabalhada nos badulaques étnicos exagerados para a sua figura,fora a roupa,não lhes dava chance de concluir sua linha de raciocínio,só dava ela ali,somente o que ela falava era certo e ponto final! Era um tal de bullying pra lá,preconceito contra os negros pra lá,mimimi pra lá,mimimi pra lá.

 Já repararam que a "patrulha" do politicamente correto sempre se excede? Tudo hoje se excede,exatamente por causa de uma escassez de idéias,atitudes,contextualizações,curiosidade...


Ferramentas necessárias para entender não somente a Literatura,que era a questão do debate a que eu assisti,mas que servem à criação dos juízos de valor frente à vida em sociedade e é claro que precisamos ter contato com os dois lados da moeda,nem só de momentos gloriosos vive a sociedade,os momentos menos prestigiados também contam na formação de um povo. E não é censurando obras de autores como Monteiro Lobato que o preconceito deixará de existir. Falo preconceito por que essa palavra bullying não existia até pouco tempo atrás aqui no Brasil.

Ora se vierem com notas explicativas,vão tolher logo de cara o encanto que as obras produzem ao primeiro olhar,a criatura já vai iniciar a leitura com uma idéia pré-concebida,quando a idéia principal é que seja criada uma idéia a partir do que se leu. Se a pessoa lê algo com um contexto diferente de sua realidade,logicamente surgirá a curiosidade de saber o porquê de determinado acontecimento, porquê o psicológico de um personagem é assim ou assado,o lugar onde ele vive,ou porque o autor tal escreveu isso e aquilo,porque ele pensava dessa forma... é assim que se explora de uma forma lúdica o interesse das pessoas,contextualizações de época e ética. Não existe essa de o meu grupo tem mais direito que o seu,porque historicamente isso,historicamente aquilo.Não se deve perpetuar a atmosfera limitadora de uma época,geração após geração. Temos a sorte de viver numa época onde tudo pode,então devemos fazer bom uso dessa possibilidade.Todos nós temos direitos e deveres,ninguém é melhor que ninguém. Ao invés de militar por esta ao aquela bandeira,que tal ensinar o primordial? Não se deve fazer aos outros aquilo mesmo que não gostamos que façam à gente. Simples,direto,honesto,firme.


A única coisa que conseguirão com isso é apagar o nosso passado histórico,se hipoteticamente ocorrer mesmo uma censura e retirarem toda e qualquer obra do autor de circulação,imagino que será como descreveram perfeitamente George Orwel e Aldous Huxley,como seria uma sociedade dominada por uma estrutura que se inicia com esses combates às injustiças passadas e futuras e acaba por se tornar uma ditadura onde a liberdade é censurada e o simples ato de querer viver simplesmente,pensar ou escrever é passível de punição.Pouco a pouco,as memórias vão se apagando e aquela sociedade perde o seu passado. Se por algum motivo alguém lembra de algo ou insiste em querer saber o que houve antes,é punido de morte.

É uma visão terrível,e que nós sabemos,é passível de acontecer. Já aconteceu várias vezes na História. Vide os regimes Stalinista e Hitlerista,só para mencionar os mais conhecidos.

Concordo que deveriam haver professores capacitados que pudessem abordar o tema em classe,mas existem inúmeros obstáculos e eles não vêm apenas por parte da falta de investimento dos profissionais,o próprio publico trata o hábito da leitura com descaso,aliás tratam qualquer forma de aprendizagem desse modo. Professores,dia após dia são agredidos por alunos e desistem da profissão,quando não desistem,basta reclamarem para levar chibata também por parte dos orgãos repressores. Ai que animo né gente,para se especializar e dar alguma dignidade aos futuros cidadãos deste país! Aliás,acha que pessoas como essas perderão seus tempos se inspirando em qualquer coisa que venha de livros? Elas são preconceituosas e violentas por si,se tiverem que se inspirar em alguma coisa para isso servem as novelas televisivas...Está longe delas saberem que as novelas tem origens literárias...E concluindo tudo o que eu disse,não estou sendo preconceituosa,estou expondo um conceito verdadeiro,ele reflete esses dias de hoje,tão excessivo em suas informações porém desprovidos de conteúdo. A solução não está na censura,está na reavaliação de valores.

Como eu sempre posto um vídeo no final das minhas postagens,hoje vou postar o ótimo filme "Idiocracy". Assistam o filme e reflitam:




 Beijocas,espero que gostem!

6 comentários:

  1. Aninha,
    Texto sensacional!
    Parabéns!!!!
    Compartilhando, now.
    bjs

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  2. Texto ótimo,não precisa tirar nem por uma linha!
    As pessoas que deveriam ser a "elite" preocupam-se procurando pelo em ovo, quando há tantas coisas mais primárias e primordiais a serem resolvidas!

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  3. Acho que não seria saudável tirar a importância desse autor na literatura brasileira, pois até hoje é uma referência, mas acho que deve-se sim questionar o que ele disse, principalmente nessa questão do preconceito, e seria muito proveitoso fazer isso com os alunos. Quanto à receptividade dos alunos, eu acho que dizer que elas são violentas por si mesmas é um tanto equivocado. Há muitos fatores que interferem na sala de aula. Hoje em dia a maioria das crianças é criada por babá, e trazem essa carência de pais para a escola, e os que são pobres pra ter babás se criam sozinhos. Veja bem, a carencia aqui não é só afetiva, mas tb de um modelo a seguir. Quando se é adolescente vc precisa questionar tudo, e o professor é a maior autoridade em sala, portanto, se o aluno não tem pais presentes, vai querer chamar atenção dos professores e questioná-los, sem falar na questão social e nas vivências traumatizadas que cada um teve ou pode ter tido e nas famosas mudanças físicas e de necessidades afetivas. No fim, o professor precisa vencer todas essas realidades para convencer os alunos de que eles precisam aprender, mas tudo isso só mostra que eles são humanos, complexos.

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  4. Concordo com o texto em gênero e grau!
    Vemos muitas discussões inúteis tomando tempo das autoridades e da sociedade em geral. Os livros retratam a mentalidade de uma época e Monteiro Lobato tinha sua parcela de conservadorismo: nada mais normal! Cabe ao professor tratar desses temas e dizer como isso fazia parte daquele cotidiano e hoje não deve haver preconceito.

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  5. Ana, tive uma discussão sobre este mesmo assunto em uma sala de aula (sou professora de Literatura). Meu discurso foi muito parecido com o seu. Tiomei até a liberdade de postar seu texto na minha página no facebook. São colocações como as suas que valem ser discutidas, não as bopbagens que ando ouvindo por aí.

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  6. Eu me sinto muito honrada Silvia,por ter escolhido o meu texto como respaldo para as suas idéias! Infelizmente,a mente da população é ainda muito limitada! Beijocas!

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